Situações limites em que o próprio limite é questionado, ações subversivas que desmontam a lógica das certezas estabelecidas, instalações e instaurações que desafiam o uso mecânico que a arquitetura da cidade propõe, performances que transformam o sujeito em objeto artístico, fazendo com que o sujeito recoloque a questão do objeto artístico enquanto mercadoria, enquanto valor de troca.
Uma parcela considerável de artistas contemporâneos vem retomando a idéia de que a sociedade de espetáculos é a deusa Maya da ilusão e da aparência, que deve ser combatida com todo esforço possível. E para isto é preciso vencer o medo do mergulho profundo à nossa inconsciência, à nossa irracionalidade, para trazer de lá, justamente, nossa mais plena consciência, nossa mais saudável racionalidade. Para o filósofo francês Gilles Deleuze, quanto maior a produção de consciência, maior também é a produção de seu contrário, a inconsciência, pois uma não existe sem a outra, como a luz e a sombra, o claro e o escuro, que justamente definem o corpo de um objeto, sujeito de nossas questões.
Atuar na direção da percepção dos códigos culturais que perpetuam a sociedade de consumo e que estabelecem a massificação segundo os padrões regidos pelo mercado, tem exigido dos artistas, filósofos e todos aqueles que atuam pela ética e pela estética - ao invés da anestesia generalizada - uma busca constante em romper com os limites estabelecidos do discurso dominante.
Herdeira do Dadaísmo e do Surrealismo, a arte que surgiu depois dos anos 50 procura desmontar e devorar as convenções e normas ditadas por uma arte que se contenta com a representação no uso da linguagem, apresentando em seu lugar uma expressão cada vez mais comprometida com a transformação da realidade.
Sem se negar a se relacionar com o mundo, esse tipo de ação sabe não se deixar paralisar, pois quem se mantém contra os fatos, ainda se vincula a ele, mesmo que de forma obscura. Ao invés da verdade irrefutável que a objetividade propõe, a desconstrução dos signos. Ao invés da monumentalidade heróica revivendo a memória dos grandes fatos e nomes, performances, atitudes, situações de confronto.
Um exemplo notável é a obra de Arthur Barrio, um artista luso-brasileiro, que há mais de 30 anos vem realizando trabalhos que primam pela radicalidade e pela experimentação, sem fazer concessões ao sucesso de mercado. Em 1969, por exemplo, auge da violência ditadura militar, ele jogou sacos ensanguentados nas ruas de Belo Horizonte, amarrados como trouxas, criando um enorme incômodo às autoridades autoritárias da época. Outro de seus trabalhos é o ‘‘livro da carne’’, de 79, feito com um pedaço de carne cortado como se fosse um livro, como se nos mostrasse onde é o lugar em que ficam as marcas da memória. Um trabalho difícil de ser engolido pelas galerias e pelo circuito comercial das artes, já que suas intervenções em galerias, chamadas de escarificações, geralmente são constituídas de incisões nas paredes, cortando-as, rasgando-as, perfurando-as, machucando-as. Com alto teor de brutalidade e visceralidade.
Uma forma de fazer arte muito diversa da convenção tradicional certamente, mas em compensação, muito mais próxima da relação com a vida do que com o ‘‘show da vida’’, afinal, é necessário desvendar os caminhos de Maya, a ilusão.
Para quem quiser conferir um pouco do trabalho de Barrio, o Paço das Artes em São Paulo mostra uma retrospectiva de suas obras até o dia 15 de janeiro.
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