GRAMADO (RS) - Filme que abriu fora de concurso na última sexta feira a mostra gramadense, “Antártida” é drama psicológico com grandes ambições mas resultados bem modestos.

Dirigido por Bruno Safadi e roteirizado por Claudia Jouvin, é uma trama que tem como cenário uma claustrofóbica estação brasileira de pesquisas na Antártida. Ali, muitos graus abaixo de zero, há algumas mulheres e homens, cientistas e militares. Uma delas é estuprada. Além dessa violência, há subtemas como brutalidade doméstica, resistência à autoridade feminina e agressões às mulheres.

Desde o início o filme se nutre de masculinidade tóxica com a declarada intenção de criar um suspense impregnado de questões de gênero. Mas as coisas se desequilibram pela quantidade de situações paralelas que retiram tempo e energia dos inúmeros personagens – interpretados por um elenco que também não oferece muito equilíbrio à narrativa.

Andrea Beltrão, como a subcomandante do campo, encabeça o grupo de interpretes, entre eles Lázaro Ramos, uma over Marina Ruy Barbosa (a vítima do estupro), Leandra Leal (a médica) e os “suspeitos” Adélio Lima, Gero Camilo, João Vitor Silva, Renan Monteiro, Henrique Barreira e Marcos de Andrade.

Faltou sutileza ao roteiro, que avança sobrecarregado nessa profusão de conflitos. Ao que tudo indica, as opções da direção e da produção foram mais no sentido de enfatizar um tom folhetinesco. Resta saber a opinião do grande público, que terá a oportunidade de conferir a partir de 7 de setembro a superprodução cujo orçamento parece bem pródigo mas não revelado durante a coletiva: a Globo Filmes não economizou na criação de um set de mil metros quadrados e muitos efeitos especiais .


SURGEM BONS FILMES


Festivais são assim mesmo: nada como um filme depois do outro. Já no sábado (15), segundo dia útil da programação, um belo filme. “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton (que estreou em 2020) em Gramado com o delicado e hilário “Pacarrete” (Kikito de melhor filme e mais 7 estatuetas), é o segundo longa do diretor e ganhou o prêmio de melhor filme na seção “Generation” no Festival de Berlim em fevereiro último e já vem cumprindo carreira em festivais internacionais.

Na história, uma jornada dupla e entrelaçada: a do clássico rito de passagem (“coming-of-age”), que investiga a zona limite entre infância e adolescência; e aquela que, bem contemporânea, explora a identidade de gênero e a subjetividade “queer”.

Nesse sentido, “Feito Pipa” pode ser comparado - também pela sensibilidade de uma linguagem visual que incorpora nuances psicológicas e o uso vital e performático dos corpos - a realizações como “Tomboy”, de Céline Sciamma, ou “Close”, de Lukas Dhont.

"Feito Pipa" aborda questões de gênero a partir de Gugu, um menino apaixonado por futebol e dança
"Feito Pipa" aborda questões de gênero a partir de Gugu, um menino apaixonado por futebol e dança | Foto: Divulgação

São filmes que colocam o universo contemporâneo da adolescência no centro, e nos quais a dicotomia comportamental de “coisas de menino” versus “coisas de menina”, imposta pela norma heterossexual, particularmente no Brasil rural, onde a trama se desenrola, gera, para o “diferente” (o adolescente Gugu, cuja identidade não se encaixa em dicotomias), uma sensação de não pertencimento ao grupo que gostaria de enquadrá-lo. Ou esmagá-lo.

A história, elaborada com habilidade e sensibilidade pelo diretor em parceria com André Araújo, amigos e colaboradores de longa data, acompanha Gugu, um menino de doze anos apaixonado por dança e futebol. Tendo perdido a mãe muito cedo, ele vive com a avó Dilma, mulher de espírito livre e vitalidade contagiante, enquanto enfrenta o bullying e, sobretudo, atravessa uma crise em seu próprio mundo. Yuri Gomes e Teca Pereira (respectivamente o garoto Gugu e sua avó Dilma) compõem uma dupla irresistível. Kikitos à vista.

* O crítico está em Gramado a convite da organização do festival.

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