ReproduçãoRaquel de Queiroz: obra e biografia nos Cadernos de Literatura BrasileiraA primeira romancista brasileira a fazer grande sucesso, pioneira feminina na Academia Brasileira de Letras (ABL), a escritora Rachel de Queiroz mais uma vez chega na frente. Ela é a primeira mulher a ganhar uma edição dos Cadernos de Literatura Brasileira, revista do Instituto Moreira Salles que traz um dossiê completo sobre a vida e a obra de grandes autores nacionais.
Cadernos de Literatura Brasileira: Rachel de Queiroz é completo. Há uma grande entrevista com a autora (que inclui, além das perguntas dos organizadores da revista, outras tantas feitas por João Cabral, Lya Luft, Jacó Guinsburg e do rabino Henry Sobel, esse último com questões sobre as raízes judaicas da escritora); estudos escritos por Wilson Martins, Vilma Arêas e por Heloísa Buarque de Hollanda; depoimentos sobre Rachel de Carlos Heitor Cony e Ary Quintela; um estudo fotográfico realizado em Quixadá; e trechos inéditos de suas memórias, que serão editadas no ano que vem.
‘‘O caderno dá enfâse aos escritores vivos, pois acreditamos que é um privilégio ser contemporâneo de certos autores, como Rachel de Queiroz’’,explica o jornalista Rinaldo Gama, um dos responsáveis pela revista, que iniciou sua série de autores em março de 1996. ‘‘Como nos anteriores, o número dedicado a ela, com uma tiragem de 7 mil exemplares, ficará a meio caminho entre um viés jornalístico e o livro de estudos, mas creio que a edição com Rachel foi mais equilibrada’’, completa. Em março, será a vez do caderno dedicado a Lygia Fagundes Telles.
Segundo Gama, a escolha de Rachel baseou-se em sua importância no cenário literário. ‘‘Apesar de ter começado sua carreira com apenas 19 anos, ela conseguiu ser a primeira mulher a ter uma grande repercussão como escritora, introduzindo a presença feminina na literatura brasileira’’, afirma. A autora nasceu no dia 17 de novembro de 1910, em Pici, no Ceará, filha de uma família de intelectuais que, desde cedo, colocou Rachel em contato com bons livros.
Ainda estava morando com os pais, quando escreveu seu grande romance, um dos marcos da hoje batizada segunda fase do modernismo: O Quinze. Rachel, entre 1928 e 1929, com parcos 19 anos, criou sua obra-prima sobre a seca nordestina, escondida da família, que temia o esforço da menina magra vítima de crises de congestão pulmonar.
A escritora esperava todos irem dormir para trabalhar. ‘‘Um lampião ficava aceso a noite inteira, resolvi aproveitar a luz e, deitada de bruços, comecei a escrever, a lápis, num caderno, o romance’’, conta Rachel na revista. Publicado em Fortaleza, o livro teve repercussão extraordinária, recebeu elogios rasgados de Mário de Andrade e de Augusto Frederico Schmidt e, em 1931, ganhou o Prêmio Graça Aranha. O relato comovente sobre o desespero sertanejo durante a seca de 1915 veio preencher o hiato em que o romance brasileiro moderno se encontrava, após as experimentações e ousadias do movimento de 1922, trazendo o Nordeste de volta à cena literária e obrigando o resto do País a conhecer sua triste realidade.
Prova de seu talento e do pioneirismo feminino é que, ao ler o livro, Graciliano Ramos não acreditou que uma jovem de tão pouca idade pudesse ter escrito algo tão intenso e, num rompante machista disse não acreditar no nome da autora e afirmou que O Quinze era obra de um homem. O escritor viu-se, após ter conhecido Rachel, obrigado a engolir suas palavras e assumir seu preconceito. Mas nada mais natural: naqueles tempos, a literatura feminina era feita por senhoras que escreviam histórias e poesias apaixonadas. Rachel chegava em cena com uma visão forte das personagens da seca. ‘‘Minhas mulheres são danadas, não são?’’ ‘‘Talvez seja ressentimento do que não sou e gostaria de ser’’, confessa a escritora.

mockup