Desde quando surgiu como uma forma melancólica de interpretação respaldada pelo trio cavaquinho, violão e flauta, o choro passou por grandes transformações - o estilo aceitou a percussão e o oficlide, o sax e a clarineta, foi cantado, conheceu o violão de sete cordas e se aproximou da música de câmara, para citar alguns exemplos.
Ao cair no gosto dos estudantes das faculdades de música, o choro passou a ser tocado por instrumentistas que acumulam referências diversas, e ganhou um novo leque de execuções incorporando vários estilos. Essa tendência ainda provoca a resignação dos chorões tradicionalistas, mas ganha espaço em novos grupos como o Rabo de Lagartixa, que está lançando o CD homônimo com uma formação inusitada, composta por saxofone, violão de sete cordas, cavaquinho e contrabaixo.
O lançamento traz um repertório dividido entre compositores como Villa-Lobos, Baden Powell e Waldir Azevedo, e músicos de gerações recentes, como Caio Cezar e Bilinho Teixeira. Nesta seleção, o grupo carioca destila interpretações espontâneas que mergulham em gêneros que vão da guarânia ao jazz e pop. Ou seja, o crossover chegou ao choro.
ReproduçãoNascido na Faculdade de Música da UniRio, o Rabo de Lagartixa surgiu com uma proposta diferente mais pela amizade entre os instrumentistas do que uma novidade meticulosamente orientada. O formato colabora com a transição de estilos ressaltada pelo grupo. ‘‘A intenção é fazer música sem preconceitos, aberta e até com a petulância de misturar coisas antagônicas’’, explica Alessandro Valente, responsável pelo cavaquinho. O Rabo de Lagartixa traz ainda Daniela Spielmann no sax, Marcello Gonçalves no violão de sete cordas e Alexandre Brasil no contrabaixo.
O disco abre com ‘‘Quebra-queixo’’, boa melodia de Caio Cezar, um dos compositores da nova geração. Em ‘‘Formosa’’ (Baden Powell/Vinícius de Moraes), a terceira faixa, surge Elza Soares em ótima participação num vocal descontraído. A bela ‘‘Melodia sentimental’’ (Villa-Lobos/Dora Vasconcelos), ganha ritmo incidental de guarânia.
A mistura jazz/samba prevalece em ‘‘Pagode jazz sardinha’s club’’ (Eduardo Neves/Rodrigo Lessa) e persiste em ‘‘Joãozinho na gafieira’’ (Luís Filipe de Lima), que traz um naipe de metais bem arranjados. Outra surpresa é ‘‘Arrasta-P钒 (Waldir Azevedo), em que o contrabaixo acústico é tocado com arco. ‘‘Carrapato’’ (João Lyra/Paulo César Pinheiro), traz a participação de Pedro Luís e a Parede e ‘‘Diabinho Maluco’’ (Jacob do Bandolim) foi acelerada. O amálgama rítmico inclui ainda a viola de João Lyra em ‘‘Brincadeiras de Quintal’’ (Bilinho Teixeira) e a bateria de Cássio Cunha em várias faixas. Vale também destacar a percussão de Beto Cazes em quase todas as composições.
‘‘A gente pode dizer que a música instrumental está valorizando mais o choro e os chorões estão se abrindo mais para a música instrumental’’, acrescenta Alessandro Valente. E ressalta: ‘‘Manter a tradição é importante, mas as próprias pessoas mais conservadoras estão abrindo os ouvidos para novas músicas. Isso valoriza também o choro tradicional.’’ O CD ‘‘Rabo de Lagartixa’’ é uma produção independente realizada com apoio da empresa paulista Amafi e distribuída nacionalmente pela Kuarup. O endereço do grupo na Internet é www.momentus.com.br/users/rdl.

mockup