Mais parece um desses mundos mágicos saídos das fábulas, sem crise cambial, oscilação das taxas de juros e recessão à vista: cerca de cem artesãos trabalham dez horas por dia como formigas ligeiras na construção de um castelo à espera de uma milenar família de feiticeiros muito conhecida das crianças brasileiras. A corrida é contra o tempo: na segunda quinzena de março começam as filmagens de ‘‘Castelo Rá-Tim-Bum’’, um dos longas infantis mais esperados dos últimos anos, adaptado da série homônima de maior sucesso da TV nos anos 90. Com produção de Alain Fresnot, o filme, de R$ 7 milhões, chegará às telas entre dezembro e janeiro.
Como convém a uma fábrica de castelos, essa oficina de sonhos se esconde no meio de uma floresta, num galpão de 2 mil metros quadrados encravado no sopé de uma montanha, na cidade de Cajamar (SP), com acesso pelo km 29 da Rodovia Anhanguera, depois das localidades de Polvilho e Santana do Parnaíba, ao fim de uma pequena ponte e de uma cerca de madeirite vermelho, como descrito no mapa.
O trabalho por lá começa às 8h30 com a chegada dos ônibus que transportam cenotécnicos, aderecistas, serralheiros, pintores, cozinheiros e equipe de produção da porta da produtora, a A.F. Filmes, na Vila Madalena, em São Paulo, até Cajamar. Cheiro de cola e resina, marteladas, serra-serra, esmeril, serragem caindo do teto, poeira entrando na vista, entra-e-sai de gente carregando madeira, tecidos, rascunhos de cenário, tráfego de caminhões com material cenográfico... Essa tem sido a rotina da produção do ‘‘Castelo Rá- Tim-Bum’’ desde 4 de janeiro.
‘‘Estamos trazendo o Castelo para o mundo real, com dimensões de verdade’’, explica Vera Hamburger, uma das diretoras de arte. Nem era preciso dizer. O hall central do castelo cenográfico tem 400 metros quadrados e pé direito de 11 metros, quase tocando o teto do galpão, de 14 metros. É todo construído com madeira e tem em sua lateral uma extensa escada em caracol parede acima com acesso ao quarto do Nino, o protagonista da história. A árvore que aparece na TV no meio do salão também será plantada no castelo do filme. É feita de isopor e tem perto de 11 metros.
Alain Fresnot, dono da A.F. Filmes, calcula que Castelo será visto, pelo menos, por 1 milhão de pessoas, número fabuloso para o cinema nacional infantil. Para comparar: ‘‘Zoando na TV’’, com a apresentadora Angélica, está na sexta semana com público de 600 mil pessoas; ‘‘Simão, o Fantasma Trapalhão’’ entrou na nona semana com 1,6 milhão; e ‘‘Uma Aventura do Zico’’ foi para o vestiário mais cedo, com apenas 40 mil.
O esforço da produção é para repetir no filme o elenco da TV, tendo à frente Cássio Scapin como Nino, Sérgio Mamberti como Doutor Victor e Rosi Campos no papel de Morgana. Três outros cenários reproduzem os quartos de Nino, Morgana e uma biblioteca. A fachada do castelo será filmada no bairro do Ipiranga, aproveitando o exterior da mansão da família Jafet, que será reformada pela produção. Além da pintura, a mansão terá a fachada redecorada com esfinges e gárgulas.
O ‘‘Castelo Rá-Tim-Bum’’, a série, estreou na TV Cultura em 1994. Surgiu como a nova versão do infantil Rá-Tim-Bum, com direção do videomaker Fernando Meirelles, exibido em 90 e 91 e citado, na época, como uma revolução na programação infantil. Levou um monte de prêmios internacionais.
‘‘Castelo...’’ conseguiu o que era pouco provável: foi ainda melhor que seu antecessor. Seus 90 episódios custaram US$ 3 milhões, pagos pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e pelo Serviço Social da Indústria (Sesi).
Cao Hamburger dirigiu os 90 episódios do ‘‘Castelo’’ para a TV e assina a direção-geral e o roteiro do filme. Seu trabalho é um bom exemplo de que programas para as crianças podem aliar entretenimento e educação. Foi ele quem criou o bem-sucedido ‘‘Disney Club’’, no SBT e, desde outubro, está contratado pela Globo para criar um infantil para o horário da manhã. ‘‘Castelo’’ será a estréia de Hamburger no cinema.

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