Quito - As luzes brancas, azuis e alaranjadas dão contornos mágicos às imponentes construções, como se elas flutuassem no meio das sombras. A visão do centro de Quito à noite, sob uma iluminação sutil, é quase uma definição da cidade: um lugar que esconde seus tesouros, os quais só conseguem ser desvendados por quem tem persistência e sensibilidade.
A cidade de Quito, portanto, merece um olhar especial, um roteiro caprichado, mesmo que reduzido três dias é uma boa média. E não deve ser encarada como mero ponto de passagem para o arquipélago de Galápagos. Com 1,6 milhão de habitantes, está encravada na Cordilheira dos Andes e é cercada por vulcões.
O principal é o Pichincha, que entrou em erupção pela última vez em 1999 e não deixa ninguém se esquecer de sua existência, já que é uma presença constante na paisagem. Essa conformação especial explica um pouco o clima de Quito, que surpreende os turistas desavisados: mais para temperado do que para quente, com grandes oscilações durante o dia.
Mistura de estilos hispânico e neoclássico, com alguns toques indígenas, o centro velho está extraordinariamente limpo e preservado. Até os ambulantes, que desafiam as administrações das grandes cidades brasileiras, foram retirados das ruas. Lojas, restaurantes e galerias de arte já disputam os imóveis disponíveis. O próximo passo, conforme lembra a guia Rosario Naranjo, será restaurar as casas antigas e resgatar o centro como alternativa para moradias como fizeram as cidades européias.
Durante o século 13, a cidade foi centro do reino dos quitus e, mais tarde, uma das capitais do império inca. A história colonial de Quito começa, no entanto, em 1534, com a fundação pelo espanhol Sebastião de Benalcazar. O nome deriva da palavra ''quitsa-to'', que quer dizer exatamente metade do mundo, em linguagem primitiva.
Um passeio pelo centro antigo de Quito tem, como ponto de partida obrigatório, a Praça Centenário, que é circundada pelos Palácios do Governo, da Prefeitura e Arcebispal. Três construções exemplares do período da Colônia.
Bem no meio da praça fica o Monumento aos Heróis da Independência, do início do século 20. A independência da Espanha foi declarada em 10 de agosto de 1809, mas só foi conquistada em 1822. Formou-se, então, a república da Grande Colômbia, que durou oito anos e reuniu Equador, Colômbia e Venezuela. Por isso, os três países têm hoje as mesmas cores em suas bandeiras (amarelo, vermelho e azul).
No coração da cidade, situam-se cerca de 40 igrejas, com destaque para a própria Catedral, da Companhia de Jesus e de São Francisco. Todo em madeira revestida com ouro e expressão fiel do barroco, o templo da Companhia de Jesus guarda muitas semelhanças com o similar de São Francisco, no Pelourinho (Bahia).
A majestosa igreja de São Francisco, a mais antiga de Quito, domina a praça do mesmo nome, onde nasceu a cidade. Diz a história que ela foi erguida sobre um templo inca, pelos espanhóis que, assim, demonstravam sua força sobre a cultura do povo conquistado, como explica a guia Rosario. Barroca, com influência árabe, ela é decorada com imagens do sol, o deus dos incas. No subsolo, funciona uma galeria de arte e uma loja de fino artesanato, com cerâmicas, bijuterias e roupas.
Esse conjunto de igrejas abriga imagens e pinturas da chamada escola quitenha que, ao lado da cusquenha (de Cuzco, no Peru), representa o ponto máximo da arte sacra na América Latina, desenvolvida pelos missionários espanhóis para catequizar os indígenas.
As inúmeras atrações da cidade não devem, contudo, privar o turista de uma visita ao Parque Nacional Cotopaxi, onde se encontra o vulcão de mesmo nome, ainda em atividade. Cotopaxi, com 36 mil hectares de área, fica a cerca de 45 quilômetros de Quito e o trajeto é feito por trem.
A cratera do vulcão costuma ficar encoberta por nuvens a temperatura lá é baixa, próxima de 5ºC, as chuvas são constantes e o sol, quando sai, queima bastante. Mas o melhor da viagem é a própria viagem que pode ser feita no teto do trem, com toda a paisagem andina à disposição do privilegiado passageiro. Serpenteando pela cordilheira, a baixa velocidade, o trem atravessa bosques, vales e fazendas coloniais. Há excursões de dia inteiro que combinam a visita ao parque (o ingresso custa US$ 10) e almoço numa fazenda típica.
Cotopaxi, a mais de 5 mil metros de altitude, e mesmo Quito, a 2.850 metros, podem proporcionar uma ''emoção'' adicional aos visitantes. Ou seja, os efeitos do chamado ''soroche'', ou mal de altitude. Náuseas, tontura, dor de cabeça e principalmente falta de ar são os sintomas característicos. Os hotéis maiores normalmente estão preparados para atender aos casos mais agudos. No geral, porém, uma boa noite de sono na chegada, refeições mais leves e sem álcool são suficientes para a adaptação.

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