O filme ‘‘Oriundi’’ sofrerá alterações. A confirmação foi feita ontem, durante a entrevista coletiva concedida em Curitiba pelo ator Anthony Quinn, protagonista e co-produtor da película. Esse teria sido um dos principais motivos de sua vinda ao Brasil.
Bem humorado e irreverente, ele iniciou a entrevista afirmando que não gosta de formalidades. Ao dizer isto, sentou-se sobre a mesa arrumada especialmente para a coletiva. Ao ser advertido pelo pessoal da organização, puxou uma cadeira e juntou-se aos jornalistas, informalmente.
Durante o bate-papo descontraído, ele afirmou que achou o filme confuso. ‘‘Não está claro do que se trata a história. Com as alterações que propus, a mensagem se tornará mais evidente’’, garante Quinn. Na prática, a montagem final – ou o último minuto e meio da fita – será estendida e algumas cenas serão sutilmente alteradas.
A mensagem do filme deve deixar claro que a vida é mais importante do que qualquer fantasia. ‘‘Nunca vi ninguém regressar do céu’’, brincou o ator. Ele se refere a questão do suposto retorno da mulher do protagonista de ‘‘Oriundi’’, décadas depois de sua morte, através de uma parente distante, interpretada por Letícia Spiller.
Quinn fez questão de deixar claro que a necessidade das alterações não foi uma questão pessoal ou de ego. Ele agiu com a experiência de quem já atuou em 250 filmes e co-produziu outros tantos, entre eles o clássico ‘‘Zorba, o Grego’’. ‘‘Eu quero apenas é que o filme diga que dois mais dois são quatro’’, afirmou.
O diretor de ‘‘Oriundi’’, Ricardo Bravo, afirma que as mudanças apenas aumentarão o entendimento do filme. Ele lembrou que a fita original foi extremamente elogiada pela crítica da revista ‘‘Variety’’, por exemplo, além de ter recebido o prêmio de melhor filme no 33º Annual WorldFest - Houston Internacional Film Festival, nos Estados Unidos.
A fita, que entrará em circuito nacional nesta sexta, com exibição em cem salas de todo o Brasil, entretanto, será a original. Ou seja, a mesma que foi pré-lançada em Curitiba no final do ano passado. As alterações atenderão especificamente ao mercado internacional.
‘‘Talvez os Estados Unidos e o resto do mundo não sejam tão inteligentes quanto vocês e precisem de um filme mais claro e evidente’’, brincou Quinn. Na verdade, os brasileiros só terão acesso a nova montagem quando o filme for lançado em vídeo ou em futuras reapresentações.
Falando sobre fantasia e realidade, Quinn citou como exemplo o fato ocorrido durante a sua estadia no Brasil, no ano passado, quando conheceu a garota Maria Rosa, vendedora de pescados no litoral do Paraná, e a levou para os Estados Unidos.
‘‘Ela preferiu a verdade a uma fantasia, o mesmo que espero do filme’’, compara Quinn. O ator diz que a levou para sua casa, onde a menina foi tratada por sua mulher e seus filhos como membro da família. A intenção era a de adotar legalmente a paranaense, que passaria e estudar e morar nos Estados Unidos, tendo todos os direitos legais dos filhos do casal.
‘‘Ela preferiu voltar e viver a sua realidade, com a sua mãe, levando a sua vida humilde aqui na praia’’, comenta Quinn. ‘‘E eu dou toda a razão para ela’’. Segundo Quinn, depois que Maria Rosa voltou ao Brasil, eles nunca mais voltaram a se falar. O ator retorna hoje para os Estados Unidos, sem ter ido ao litoral do Estado visitar a garota.
Durante a entrevista coletiva, Quinn ainda falou sobre o seu novo filme, que será rodado no início do segundo semestre, nos Estados Unidos. Com direção do inglês Robert Young, a película falará de forma bem-humorada sobre um homem, interpretado por Quinn, que quer ser enterrado debaixo de uma árvore. O filme discute de forma inusitada a questão da terra e as outras opções de locais onde os corpos podem ser depositados após a morte.
A questão da terra, aliás, tem sido motivo de preocupação do ator. Filho de família pobre, ele conta que seus pais lutaram na Revolução Mexicana, entre 1910 e 1918, o que despertou nele um eterno questionamento sobre o assunto.
Seu discurso social sobre reforma agrária foi levado por Quinn para Brasília na semana passada, quando foi recebido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e pelo senador Álvaro Dias. Ele também expressou as suas preocupações sociais para o governador do Paraná, Jaime Lerner, que o recebeu para um almoço na segunda.
‘‘Me incomoda muito ver tantas terras produtivas num País como o Brasil, por exemplo, e tantas pessoas pobres que não podem usar esta terra para plantar e comer’’, discursa. ‘‘Não entendo porque as terras não podem ser distribuídas, se Deus fez o Universo para todos’’, diz ele. ‘‘Se eu fosse presidente do mundo, as coisas seriam bem diferentes’’, brinca.

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