São Paulo, 27 (AE) - Quando Ricardo Bravo lhe mostrou a cópia pronta de Oriundi em Denver, o ator Anthony Quinn não poupou elogios a uma figura que estava presente no encontro dos dois: a montadora Isabelle Rathéry. O nome não nega: Isabelle é francesa. Está há 12 anos no Brasil. Resume o que a trouxe ao País: "Uma história de amor." Apaixonada por um brasileiro, atravessou o Atlântico para segui-lo. É hoje uma das montadoras mais renomadas do Brasil. Além do seu elogiado trabalho no filme de Bravo, ostenta no currículo colaborações com Walter Salles e Sérgio Rezende.
Além de Oriundi, Isabelle também é a montadora de "O Primeiro Dia", de Salles, que também estréia na quarta-feira na mostra carioca. E foi ela quem montou "O Dia da Caça", de Alberto Graça, muito bem recebido no Rio, na semana passada. Três filmes que chegam simultaneamente ao público, mais "Mauá"
o "Imperador e o Rei", de Rezende, que ela também montou e estréia no fim de outubro nos cinemas. Ela minimiza sua participação em "O Primeiro Dia". "Quem fez a montagem foi o Felipe Lacerda; ele montou a versão para TV, eu apenas acrescentei três cenas para a versão dos cinemas." Ela adora Salles. Acha que tem uma cumplicidade emocional muito forte com o diretor de Central do Brasil. Reconhece que ele é, em grande parte, responsável por estar radicada no Brasil. "Waltinho gostou do meu trabalho e começou a me encher de tarefas para eu ficar aqui." Além dos filmes para cinema, com exceção de Terra Estrangeira, Isabelle também montou quase todos os especiais de Waltinho para TV. No início de sua paixão pelo cinema, queria trabalhar com a câmera. "Mas eu tinha uma filha para criar e terminei me orientando para a montagem." Não se arrepende. Na França, montou filmes de William Klein e Jacques Doillon. Conhecedora das teorias de Eisenstein e Karel Reisz, acha que as assimilou e que elas estão lá, "em algum lugar do cérebro". Mas o conceito e a técnica de montagem evoluíram muito. Adora trabalhar com computador. "Cria um campo ilimitado para a experimentação", avalia. Acha que a boa montagem é aquela que não se percebe. Detesta o exibicionismo técnico. Acha vulgaridade.
Não se furta a avaliar os diretores com quem trabalhou. Acha Waltinho o mais ousado: "Ele estimula a criatividade da gente e entende um bocado de montagem." Rezende é contido, "deveria soltar-se mais, liberar a poesia que está armazenada dentro dele". Não foi a primeira montadora de Oriundi. Quando chegou ao projeto, a montagem já estava feita (por Ana Teixeira)
mas Bravo queria mais. "Havia muitas histórias que atravancavam a trama principal." É um filme sobre um velho e sua paixão, mas a primeira montagem privilegiava muito as tramas familiares. O filme ficava dispersivo. Com Isabelle, Bravo teve a coragem de cortar. O resultado satisfaz a montadora, que tenta agora conciliar datas para participar de dois projetos que a interessam. Vai montar "Brasil", o novo filme de Bia Lessa. Mas, para isso, precisa resolver um problema de data, pois também está comprometida com a montagem do documentário de Sérgio Machado sobre o cineasta Mário Peixoto.

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