Uma dona de casa de vida aparentemente pacata, que tem no rádio sua ligação com o mundo e canta com Doris Day ''numa língu quea não conheço'', volta a abrir as portas de sua casa, expondo assim sua alma, desde ontem noite no Teatro da Classe (José Maria Santos), em Curitiba. Ela é a protagonista de ''Quinhentas Vozes'', espetáculo que já cumpriu temporada este ano no mesmo teatro e agora volta para ficar três semanas em cartaz, até 4 de novembro.
A montagem é um monólogo escrito especialmente para a atriz Silvanah Santos, do grupo Satyros. Pelo perfil da companhia este trabalho foge completamente a tudo que Silvanah já fez. É uma peça naturalista, onde a atriz coa café em cena, serve comida e pinga com mentruz.
Ela diz que a personagem ''está felicíssima de voltar a Curitiba, varrer a casa, colocar os lençóis para quarar na grama''. Na temporada paulistana, entre julho e setembro, o espaço onde foi apresentada era menor. A platéia ficava ainda mais próxima do cenário e todas as noites as pessoas comentavam sobre o cheiro do café. ''Há uma ligação com a intimidade familiar de cada um'', comenta.
O retorno ao Teatro da Classe fecha um ciclo que tinha ficado mal resolvido, continua a artista. ''Infelizmente é uma realidade curitibana as peças ficarem pouco tempo em cartaz, devido a falta de datas nos teatros. Para todos nós ficou a sensação de uma coisa incompleta, a sensação nítida de que não era o momento de terminar. Houve uma interrupção e agora vai se dar a finalização''.
''Quinhentas Vozes'' é a adaptação de um conjunto de poemas do jornalista Zeca Corrêa Leite, da Folhade Londrina/Folha do Paraná. A atriz o convidou a escrever uma peça para ela, mas sem saber como entrar no universo cênico, Zeca optou pelos poemas. O diretor Rodolfo García Vázquez e Silvanah fizeram a seleção do material e montaram o roteiro.
O enredo fixa-se em dez anos na vida de uma mulher. Tem início um dia após a morte de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, e encerra um dia após o golpe militar, em abril de 1964. Nessa trajetória os russos mandam foguete ao espaço, o Brasil ganha sua primeira Copa do Mundo, Ângela Maria grava ''Chá-chá-chá da Moça'' e Doris Day canta ''Que Será, Será''. A pílula anticoncepcional é descoberta pelos americanos e nos intervalos dos programas de rádio tem jingles como o do Detefon: ''Na sua casa tem barata? Não vou lá, vou mandar Detefon em meu lugar''.
•''Quinhentas Vozes'', monólogo com Silvanah Santos. Participação de Alvaro Bittencourt e Mario da Silva. Texto adaptado de poemas de Zeca Corrêa Leite. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo às 19 horas, no Teatro da Classe/José Maria Santos (Rua Treze de Maio, 655, fone 254-4884), em Curitiba. Prossegue até o dia 4 de novembro. Ingressos: R$ 10,00 e R$ 5,00 (bônus, estudantes e classe artística).

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