Depois de mais de um ano de preparativos, Sérgio Machado finalmente começou as filmanges de ''Quincas Berro d'Água''. Na primeira cena filmada, Marieta Severo, como Manuela, a prostituta ''espanhola'' do Pelourinho, sobe na torre e ameaça se jogar, ao saber da morte de Quincas. Sérgio Machado admite que nunca se preparou tanto para um filme. Mas ele também reconhece que nunca fez nada tão grande.
Quincas, que será distribuído pela Buena Vista, é a primeira parceria da Videofilmes com a Globo Filmes e tem um orçamento de R$ 6,5 milhões.
Além do protagonista Paulo José e Marieta Severo, também estão presentes Mariana Ximenes, Vladimir Brichta, Milton Gonçalves e muitos outras estrelas.
''Fiz dezenas de testes para selecionar o elenco'', resume o diretor, que entrevistou astros, estrelas e também gente desconhecida, mas talentosa, todo mundo buscando um papel na adaptação do romance de Jorge Amado.
Adaptar ''Quincas Berro d'Água'' era um sonho antigo do diretor. Sua admiração por Jorge Amado beira a devoção. ''Ele foi um verdadeiro pai para mim. Quando lhe mostrei meu primeiro curta, Jorge botou fé no meu trabalho. Foi quem me apresentou Walter Salles. Jorge foi uma figura tão referencial em minha vida que dei o nome dele ao meu filho.
''Quincas'' é o maior romance do escritor, embora outros possam ser mais populares - os casos de seus perfis de mulheres, Gabriela, a de cravo e canela, e Tieta, a do agreste. Da mesma estatura de ''Quincas'', só ''Os Velhos Marinheiros''. ''Tenho a impressão de que tudo o que fiz antes me trouxe a Quincas'', diz Machado. Por ''tudo'', ele quer dizer o documentário ''Onde o Mundo Acaba'', sobre Mário Peixoto, o lendário autor de ''Limite'', e a ficção ''Cidade Baixa''. No centro do romance está o tema da morte e Machado admite sua dificuldade para lidar com o assunto.
''Sei que a morte é inevitável e não me assusta tanto a ideia de que vou morrer. O que me angustia é a morte dos outros, a possibilidade de perda das pessoas queridas. Lido muito mal com isso'', conta, com toda honestidade.
O livro surgiu em 1958, misturando sonho e realidade num relato nitidamente imbricado no realismo mágico. Conta a história de Joaquim Soares da Cunha, que foi funcionário público, pai e marido exemplar até o dia em que se aposentou do serviço público. A partir daí, jogou tudo para o alto - tradição, família, respeitabilidade e caiu na malandragem, no alcoolismo e na jogatina, trocando a vida familiar pela convivência com prostitutas, bêbados, marinheiros, jogadores e pequenos meliantes e contraventores da ralé de Salvador.
Joaquim, agora Quincas, torna-se respeitado e admirado entre seus novos companheiros de infortúnio. É o pai, o sábio, o conselheiro, sempre disposto a mais uma farra ou bebedeira. Quando morre solitário, os amigos, bêbados, resolvem levar o defunto para um último ''giro'' pelo baixo-mundo. O passeio passa por bordéis e botecos, terminando num saveiro, com muitas mulheres e comida. Ocorre uma tempestade e o corpo de Quincas cai no mar.

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