ReproduçãoO público que superlotava o Guairão dividiu-se entre vaias discretas e o aplauso mornoNão, paciente leitor, eu não sou a Bárbara Heliodora, aquela senhora turrona para quem só Sir Lawrence Olivier vale a pena; o teatro brasileiro é que está nos devendo autor, figurino, trilha sonora, direção, assistência de direção, cenografia, contra-regra. O teatro brasileiro está nos devendo talento, gênio, engenho. Será que o teatro brasileiro acabou? Eu já desconfiava, mas não reconhecia de todo, e agora acabo de saber inteiramente por que o Miguel Falabella faz tanto sucesso e engorda a conta bancária em milhões.
Os ‘‘criadores’’, os ditos ‘‘encenadores’’ tupiniquins, em sua grossa maioria, parecem não realizar que para além do procênio o que há é o público, platéias ávidas da inteligência que o teatro brasileiro está nos devendo. Mas como entre os pretensos criadores brasílicos, com raras exceções, este é um artigo de luxo, as platéias, facilmente cooptadas pelo besteirol de Mauro Rasi a Ney Latorraca, apesar de emburrecerem, não se arrependem jamais - o dinheiro pago pelo ingresso reverteu em divertimento - barato e chinfrim, mas divertimento. Feito tomar umas cervejas com os amigos depois do expediente. E assim estamos conversados.
Não há jeito nem conserto: ao final de ‘‘O Sonho’’, um dos espetáculos com maior índice de expectativa desta sexta edição do Festival de Teatro de Curitiba, sob a assinatura de Gabriel Villela, que já nos deu vivos exemplos do seu melhor talento, depois de arrastada e interminável hora e meia, o público que superlotava o Guairão dividiu-se entre vaias discretas e o aplauso morno sem outra função que a de fazer as honras da casa. O público curitibano é o mais polido público de teatro do Brasil. Mas já começa a aprender a rejeitar, pela via do apupo (sua única arma), a enganação e o engodo.
Joãosinho Trinta convence muito mais: usando e abusando de uma leitura absolutamente equivocada do gênio de August Strindberg (1849-1912), o que resta de ‘‘O Sonho’’ (obra de ruptura na carreira do dramaturgo sueco, espécie de salto quântico que empreende depois de um ‘‘naturalismo’’ que entende como equivocado) são plumas, purpurinas, crepons e tafetás. E não me venham com teorias ‘‘carnavalizantes’’ para explicar as exagerações plásticas de Villela. É puro logro: determinação assanhada de fazer do palco um espaço para o brilho fortuito e de gosto fortemente duvidoso.
A platéia, paciente, aguenta, no máximo tosse e se coça insistente na poltrona, desconhecendo absolutamente que aquilo que se desenrola no palco é a história de Agnes, a filha do deus Hidra, da cosmogonia espiritual hindu, que desce à Terra para saber o quanto dói uma saudade: a miséria nossa, cotidiana e perversa; as agruras e angústias deste nosso nunca assaz decantado vale de lágrimas. Cristo e Brama e Maya se misturam numa atmosfera deliberadamente onírica, com abolição de tempo e de espaço, no texto strindberguiano marcado pelo ‘‘automatismo’’, intrigante premonição daqueles primeiros surrealistas que botariam a Europa de ponta cabeça, pouco tempo depois.
Já que sonho é sonho, Gabriel Villela deita e rola, se permitindo uma transcriação do clássico escandinavo, com uma liberdade que cheira a libertinagem, não levasse ao palco o que cenicamente sugere os piores carnavais da Beija Flor de Nilópolis: lâmpadas, ‘‘manequins’’ vivos, claros, escuros, chuvas-de-estrela, sombrinhas, strasses, gelo seco, panos, cruzes, madeiras, e até, pasmem!, ‘‘destaques’’ encarapitados a dois metros do chão. Só falta o samba-enredo, precariamente substituído pela trilha sonora que pontua do princípio ao fim a trajetória de Agnes by Villela - um mix que vai de exóticas canções hindus ao mais puro e cavo canto gregoriano.
As sugestões da miséria brasileira integrada às misérias pelas quais Agnes passará antes de retornar ao seio de Krishna soam artificiais e praticamente não vingam frente ao grosso da platéia habituada aos primores de ‘‘Sai de Baixo’’ ou aos da famigerada ‘‘Irma Vap’’, para ficar só nestes dois cândidos exemplos. A rigor, pouco ouvimos do que os atores pretendem dizer, com falas de modo geral oscilando entre o sotaque contido e uma dicção sinistra de colégio do interior da Bahia.
Não, aturdido leitor, eu não sou a Bárbara Heliodora.

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