Quimeras de um sonho
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de março de 1997
Wilson Bueno Especial para a Folha 2 
ReproduçãoO público que superlotava o Guairão dividiu-se entre vaias discretas e o aplauso mornoNão, paciente leitor, eu não sou a Bárbara Heliodora, aquela senhora turrona para quem só Sir Lawrence Olivier vale a pena; o teatro brasileiro é que está nos devendo autor, figurino, trilha sonora, direção, assistência de direção, cenografia, contra-regra. O teatro brasileiro está nos devendo talento, gênio, engenho. Será que o teatro brasileiro acabou? Eu já desconfiava, mas não reconhecia de todo, e agora acabo de saber inteiramente por que o Miguel Falabella faz tanto sucesso e engorda a conta bancária em milhões.
Os criadores, os ditos encenadores tupiniquins, em sua grossa maioria, parecem não realizar que para além do procênio o que há é o público, platéias ávidas da inteligência que o teatro brasileiro está nos devendo. Mas como entre os pretensos criadores brasílicos, com raras exceções, este é um artigo de luxo, as platéias, facilmente cooptadas pelo besteirol de Mauro Rasi a Ney Latorraca, apesar de emburrecerem, não se arrependem jamais - o dinheiro pago pelo ingresso reverteu em divertimento - barato e chinfrim, mas divertimento. Feito tomar umas cervejas com os amigos depois do expediente. E assim estamos conversados.
Não há jeito nem conserto: ao final de O Sonho, um dos espetáculos com maior índice de expectativa desta sexta edição do Festival de Teatro de Curitiba, sob a assinatura de Gabriel Villela, que já nos deu vivos exemplos do seu melhor talento, depois de arrastada e interminável hora e meia, o público que superlotava o Guairão dividiu-se entre vaias discretas e o aplauso morno sem outra função que a de fazer as honras da casa. O público curitibano é o mais polido público de teatro do Brasil. Mas já começa a aprender a rejeitar, pela via do apupo (sua única arma), a enganação e o engodo.
Joãosinho Trinta convence muito mais: usando e abusando de uma leitura absolutamente equivocada do gênio de August Strindberg (1849-1912), o que resta de O Sonho (obra de ruptura na carreira do dramaturgo sueco, espécie de salto quântico que empreende depois de um naturalismo que entende como equivocado) são plumas, purpurinas, crepons e tafetás. E não me venham com teorias carnavalizantes para explicar as exagerações plásticas de Villela. É puro logro: determinação assanhada de fazer do palco um espaço para o brilho fortuito e de gosto fortemente duvidoso.
A platéia, paciente, aguenta, no máximo tosse e se coça insistente na poltrona, desconhecendo absolutamente que aquilo que se desenrola no palco é a história de Agnes, a filha do deus Hidra, da cosmogonia espiritual hindu, que desce à Terra para saber o quanto dói uma saudade: a miséria nossa, cotidiana e perversa; as agruras e angústias deste nosso nunca assaz decantado vale de lágrimas. Cristo e Brama e Maya se misturam numa atmosfera deliberadamente onírica, com abolição de tempo e de espaço, no texto strindberguiano marcado pelo automatismo, intrigante premonição daqueles primeiros surrealistas que botariam a Europa de ponta cabeça, pouco tempo depois.
Já que sonho é sonho, Gabriel Villela deita e rola, se permitindo uma transcriação do clássico escandinavo, com uma liberdade que cheira a libertinagem, não levasse ao palco o que cenicamente sugere os piores carnavais da Beija Flor de Nilópolis: lâmpadas, manequins vivos, claros, escuros, chuvas-de-estrela, sombrinhas, strasses, gelo seco, panos, cruzes, madeiras, e até, pasmem!, destaques encarapitados a dois metros do chão. Só falta o samba-enredo, precariamente substituído pela trilha sonora que pontua do princípio ao fim a trajetória de Agnes by Villela - um mix que vai de exóticas canções hindus ao mais puro e cavo canto gregoriano.
As sugestões da miséria brasileira integrada às misérias pelas quais Agnes passará antes de retornar ao seio de Krishna soam artificiais e praticamente não vingam frente ao grosso da platéia habituada aos primores de Sai de Baixo ou aos da famigerada Irma Vap, para ficar só nestes dois cândidos exemplos. A rigor, pouco ouvimos do que os atores pretendem dizer, com falas de modo geral oscilando entre o sotaque contido e uma dicção sinistra de colégio do interior da Bahia.
Não, aturdido leitor, eu não sou a Bárbara Heliodora.


