Com a pretensão de ser um espelho da realidade, as telenovelas abusam de referências do cotidiano para movimentar suas tramas. Neste filão, entram denúncias sociais, amores impossíveis e, em quase todos os casos, problemas familiares. Dentro das dificuldades específicas de cada família, muitos folhetins recorrem aos conflitos protagonizados por irmãos como mote inicial das histórias.
Sem exageros ou caricaturas em ''A Vida da Gente'', Lícia Manzo mostra uma disputa entre irmãs de tons naturalistas. Ana e Manu, de Fernanda Vasconcellos e Marjorie Estiano, sempre tiveram uma boa relação. Porém, um grave acidente deixa Ana quatro anos em coma. E, ao acordar, ela encontra Manu ocupando seu espaço: cuidando de sua filha e casada com seu namorado Rodrigo, de Rafael Cardoso. ''Muitas vezes, o acaso nos coloca em situações difíceis. Se existe um vilão nessa novela, é a vida. A Manu não planejou nada. Mas mesmo sem querer, isso cria uma mágoa entre elas'', pontua Lícia.
Disputas fraternas podem ser influenciadas por vários fatores, como o súbito interesse pelo cunhado, a admiração pessoal que se transforma em inveja, brigas por dinheiro e a competição incentivada pelos próprios pais.
Na televisão brasileira, uma das primeiras novelas que jogou luz sobre o tema foi ''Véu de Noiva'', de 1969. Janete Clair inovou ao contar a história das irmãs Andréa e Flor, de Regina Duarte e Myrian Pérsia.
Na trama, Andréa desiste de se casar com Luciano, de Geraldo Del Rey, ao saber que Flor espera um filho dele. ''A Janete fez uma novela moderna para a época. Não só pela abordagem do triângulo amoroso, mas em termos de linguagem: os diálogos eram mais curtos e usávamos as gírias do momento'', relembra Regina Duarte.

Contrastes
A paixão pelo mesmo homem é um dos motivos de maior disputa entre as irmãs da ficção. Na contramão do bom-mocismo de ''A Vida da Gente'', outras novelas injetam altas doses de inveja nessas relações. Da obra de Ivani Ribeiro, tanto a primeira versão de ''Mulheres de Areia'', de 1973, quanto o ''remake'' de 1993, - atual reprise do ''Vale a Pena Ver de Novo'' -, tornaram-se referências na abordagem desses conflitos. ''A complexidade de gêmeas de personalidades distintas gerou muita curiosidade. Ainda mais quando uma imitava os trejeitos da outra. Ruth e Raquel se tornaram quatro personagens convincentes e mais ricas ainda'', valoriza Solange Castro Neves, colaboradora de Ivani na atualização da novela.
Os contrastes entre irmãos gêmeos também foram mote da trama de outros autores, como Antonio Calmon em ''Cara & Coroa'', de 1995, Walther Negrão em ''Como Uma Onda'', de 2004, Elizabeth Jhin em ''Eterna Magia'', de 2007, Manoel Carlos em ''Viver a Vida'', de 2009, e ''Paraíso Tropical'', novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares exibida em 2008, onde a ética irrepreensível da bondosa Taís superou as vilanias e a ambição de Paula, personagens de Alessandra Negrini. ''Cabe muita coisa nesta relação, mas a inveja e o ciúme são os sentimentos principais. A pessoa que cresce com alguém semelhante, mas melhor que ela, tem dois caminhos a seguir: admiração ou raiva'', ressalta Ricardo Linhares.
Muito antes de falar de gêmeas, Gilberto Braga é já abusava do conflito entre irmãos em suas novelas. Desde ''Dancyn' Days'', de 1978 - sua primeira obra original -, onde a tensão e as diferenças entre Júlia, de Sônia Braga, e Yolanda, de Joana Fomm, fizeram sucesso. ''A espinha dorsal de muitas novelas que escrevi está na personalidade divergente de pessoas que têm a mesma origem, criação e referências'' assume o autor, que também recorreu ao tema em ''Água Viva'', de 1980, ''Celebridade'', de 2003, e mais recentemente, em ''Insensato Coração'', exibida no ano passado.
Na mística ''Eterna Magia'', Elizabeth Jhin mostrou a indecisão do galã Conrado, de Thiago Lacerda, em ficar com Nina ou Eva, duas irmãs de idades bem diferentes, interpretadas por Maria Flor e Malu Mader. ''Esse triângulo é recheado de magia. E não se trata apenas de uma história de amor, mas de passionalidade feminina'', explica Elizabeth. Trocando o gênero, ''Prova de Amor'', da Record, pôs a moderna Raquel, de Maria Ribeiro, como alvo de disputa entre os irmãos Gabi e Rafael, interpretados por Théo Becker e Cláudio Heinrich. ''A personagem era livre e queria mostrar a complexidade dos sentimentos. Ela gostava dos dois na mesma intensidade'', pontua o autor Tiago Santiago.

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