Questão de ritmo
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de março de 2014
Geraldo Bessa<br>TV Press 
Uma boa história é o principal elemento para qualquer produção audiovisual. No entanto, diretamente influenciados pelo cinema, projetos para a tevê foram seguindo a lógica provocada pelo avanço tecnológico das gravações e dos processos de pós-produção. Nesse esquema, gradualmente, efeitos visuais e de edição deixaram as tramas cada vez mais dinâmicas, porém mais rasas. O que importa não é a riqueza do conteúdo, mas qual reação pode causar no espectador. Na telenovela, um bom exemplo desse conceito é "Avenida Brasil", de 2012. A trama era ágil, mas sustentada por uma história com sérios problemas de coerência. Mesmo assim, influenciou o ritmo de folhetins posteriores, como a atual "Além do Horizonte". "É bom instigar o público a ver outras possibilidades. Como sou um cara muito identificado com o cinema, a novela acaba tendo essa pegada, mas utilizamos também os ingredientes clássicos", explica Marcos Bernstein, que escreve a novela das sete da Globo em dupla com Carlos Gregório.
Mas está havendo uma reação a esse tipo de produção. Algumas novelas parecem retomar a linha mais tradicional. Na Globo, isso é sintomático com tramas contemplativas como "Em Família" e "Meu Pedacinho de Chão", próximo folhetim das seis. Sem grandes vilões, perseguições ou vinganças mirabolantes, na novela das nove é possível observar todo o tom naturalista de Manoel Carlos, autor famoso por cenas de muitas páginas em que pretende retratar detalhes do cotidiano. "Não estou mais na idade de inventar nada. Faço novela para o público e tento surpreender com a retomada do fator emoção no folhetim. Respeito quem faz diferente, mas, para mim, a qualidade da história ainda é o que segura uma novela", ressalta Manoel.
Um discurso próximo é adotado por outro grande novelista, Benedito Ruy Barbosa. Distante das novelas desde "Esperança", de 2002, o autor estava trabalhando apenas como supervisor de suas filhas, Edmara e Edilene, na concepção dos "remakes" de suas obras exibidos na última década, casos de "Cabocla" e "Sinhá Moça". Mas a possibilidade de voltar ao universo lúdico de "Meu Pedacinho de Chão" cuja primeira versão foi exibida pela Globo em 1971 fez Benedito tomar a dianteira do projeto. E, em sua volta como autor principal, ele faz questão de manter-se fiel a si mesmo, com direito a uma trama baseada em amores puros, luta latifundiária e ambientação rural. Tudo sob a direção conceitual de Luiz Fernando Carvalho. "Acredito que a telenovela precisa ser atualizada. A minha geração já inseriu muitos elementos novos ao longo dos anos. Mas cada autor tem um estilo. A emissora sabe o que posso entregar e que há um público cativo para o que eu escrevo. A história é quem manda no ritmo da trama, não o contrário", destaca Benedito.
A Record é outra que tem apostado mais no estilo "novelão". Depois de investir pesado em tramas baseadas em efeitos especiais, como a saga mutante de "Caminhos do Coração", e apelar para a mistura de violência e temáticas populares em novelas como "Vidas em Jogo" e "Balacobaco", a emissora não poupou gastos em "Pecado Mortal", folhetim de estreia de Carlos Lombardi. Ambientada nos anos 1970, a novela evidencia o estilo do autor, dono de um texto voraz e rápido, sempre a serviço do elenco. "É muito relevante para o autor ter uma assinatura. Eu não faço novela pensando em cenas mirabolantes do ponto de vista técnico. A minha pretensão é ganhar o público a partir das tramas e personagens cativantes. Mas acredito que há espaço para qualquer tipo de trabalho", opina Lombardi, que, no momento, prepara-se para as cenas finais de seu folhetim. A partir de maio, quem entra no horário é Cristianne Fridman com "Vitória". Na nova novela, a autora afirma buscar inspirações mais tradicionais, mesmo mexendo em temas espinhosos como o neonazismo. "É um assunto que me intriga bastante. É uma postura radical e inadmissível, mas que está crescendo entre os jovens. Vai ser o ponto de ação dos vilões da novela, ou seja, é o drama que comanda a situação", adianta a autora.


