Já superado definitivamente o trauma pós 11 de setembro, Hollywood volta a tratar de forma aberta os recentes tabus gerados a partir da paranóia terrorista que, durante estes últimos anos, tomou conta do País orquestrada pelos interesses belicosos de George W. Este ''Ponto de Vista'' em lançamento nacional a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2) é uma boa amostra disto, um produto carente de substância, anedótico e passageiro.
O filme começa com a chegada do presidente dos EUA a uma conferência de cúpula na Espanha sobre a luta contra o terrorismo. Pouco antes de iniciar seu discurso, o homem forte do planeta é abatido a tiros, enquanto bombas explodem na cidade. Muitas pessoas presenciam o incidente, desde agentes que se dedicavam à proteção do falecido até o pessoal da mídia televisiva modelo CNN que fazia a transmissão. À medida que as histórias de oito destas testemunhas são contadas, a trama vai revelando a verdade por trás do atentado.
O filme não somente remete de maneira óbvia em sua estrutura a ''Rashomon'', clássico comprovadamente seminal de mestre Kurosawa, mas a dezenas de outras produções mais recentes, como a trilogia Bourne (o diretor Pete Travis é tiete confesso de Paul Greengrass, mas termina como vulgar imitador do cineasta de ''Vôo United 93''), ''Na Linha de Fogo'', ''O Reino'', a série televisiva ''24 Horas'' e por aí afora.
O interesse por seu enfoque político não existe, quer dizer, pode existir em território dos Estados Unidos, onde é sempre amplamente aceito o recurso argumental de que aquele país é o centro do universo em termos dos ódios injustificados de todos os inimigos da liberdade e da democracia. Por outro lado, o recurso do roteiro de dedicar um lapso de tempo a cada testemunha para que sua participação na tragédia seja compartilhada, e em seguida se volte ao fato central com as imagens rebobinadas, é puro nonsense estilo ''Feitiço do Tempo'', mas sem o bom humor e o lirismo agridoce daquela comédia - aí sim, original e carismática - com Bill Murray.
''Ponto de Vista'' é puro fogo de artifício recoberto com glacê grandiloquente, entretenimento à beira da histeria que se dilui à medida que avança, deixando bem a descoberto que não tem nada de importante para contar, embora seja daqueles filmes que sabem construir uma imagem de auto-importância que decididamente não têm. (C.E.L.J.)

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