Questão de justiça
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de dezembro de 2012
Luiz Carlos Merten<BR>Agência Estado 
São Paulo - Philippe Lioret guarda ótima lembrança do Brasil, quando aqui esteve, em São Paulo e Rio, para lançar ''Welcome''. O filme fez sucesso de público e crítica, provocou debates. Na França, foi um verdadeiro acontecimento, e levou a um debate nacional que mudou uma lei cruel - que proibia os próprios franceses de prestar ajuda humanitária a imigrantes ilegais. Apesar do impacto de ''Welcome'', Lioret diz que não faz filmes para mudar o mundo, mas inspirado nas histórias de gente que gosta de contar.
Ele está de volta com ''Tudo o Que Desejamos'' e conversa com a reportagem pelo telefone, de Paris. Vai logo dizendo que o filme nasceu, em parte, do desejo de trabalhar de novo com Vincent Lindon. Assim que leu o livro ''DAutres Vies Que la Mienne'', de Emmanuel Carrère, ele sentiu que o papel seria perfeito para o ator que virou sinônimo de cidadania, além de excelência artística, na França. A surpresa é o relato que Lioret faz do caminho sinuoso que percorreu até chegar a Marie Gillain. ''Há tempos que Marion Cotillard e eu queríamos filmar juntos e achamos que esse seria o projeto certo. Mas quanto mais conversávamos, mais eu chegava à conclusão de que precisava de outra atriz, não de uma estrela. Foi uma decisão difícil. Marion representa hoje o valor mais seguro do cinema francês. Qualquer filme com ela já está vendido para os EUA, para o Japão. Faltando pouco para o início da filmagem, tive de ser honesto e me abrir - nossa parceria teria de ficar para outra vez.''
Cinema documentado
Começou a corrida para encontrar, rapidamente, outra intérprete. Uma das primeiras a fazer o teste foi Marie Gillain. Lioret ainda testou algumas, pró-forma. Depois, achou que estava perdendo tempo - já havia encontrado sua juíza. ''Tudo o Que Desejamos'' aborda o mundo do capital e o da Justiça e nisso se aproxima de ''Polissia'', de Maïwenn, com estreia anunciada para sexta-feira, sobre a brigada de defesa das crianças e adolescentes. Os dois filmes discutem as instituições da Polícia e da Justiça, mas o fazem da perspectiva não de grandes casos nem de ações espetaculares. Tudo pequeno, mas verdadeiro - e, no caso do filme de Maïwenn, urgente.
Lioret diz que não viu o documentário de Raymond Dépardon, ''10.ème Chambre'' - no Brasil, ''Instantes de Audiência'' -, sobre tema parecido, senão igual. ''De qualquer maneira, meu filme é uma ficção, por mais documentado que seja.'' Marie Gillian faz jovem juíza num tribunal da cidade de Lyon. Ela se envolve demais nos casos dos clientes. Sofre por eles. Encontra o experiente juiz Vincent Lindon e ele a apoia em sua luta contra empresas que abusam dos clientes, facilitando o endividamento. Além das afinidades ideológicas, a dupla descobre o amor, mas Claire, é o nome da personagem - Lindon é Stéphane -, está doente (e gravemente).
Lioret pede um tempo ao repórter, um minuto. Volta e diz que vai ler uma carta do autor do livro. O teor é mais ou menos o seguinte - quando Lioret lhe propôs a realização do filme, Carrère, mesmo aceitando, temia que seus personagens nunca chegassem à tela. Embora ainda não tivesse visto o filme pronto, só pelo roteiro ele já podia sentir a pulsão dos personagens. O elogio não representa pouca coisa, já que Carrère também é roteirista e cineasta (e fez um filme elogiado com Vincent Lindon, ''La Moustache'').
''A Justiça é um tema muito amplo, que não tenho a presunção de poder esgotar. Escolhi o recorte do endividamento para falar de gente e dos dramas de juízes'', esclarece o diretor. A reportagem pergunta se foi difícil conseguir autorização para filmar em tribunais autênticos. ''Foi o meu filme que encontrou mais entraves burocráticos, mas nada que não pudesse ser resolvido. A questão é que, sem esses ambientes, o resultado estaria comprometido. Não poderia fazer esse filme em estúdio.'' Foi difícil de fazer? ''Talvez um pouco mais que Welcome, por causa das crianças e do inverno rigoroso, mas é a vida.'' A reportagem elogia as interpretações da dupla principal. Lindon e Marie nem parecem estar representando.
''Fico muito alegre que você me diga isso. Trabalhei um ano no roteiro, escrevendo e reescrevendo, para que os diálogos chegassem a esse tom, que é naturalista, sem ser exageradamente coloquial. Lindon e Marie não improvisaram. Seguiram o texto. São ótimos, mas o roteiro também está integralmente na tela. Sinto-me recompensado por isso'', diz o diretor que, após dois dramas pesados, prepara sua primeira incursão pela comédia. ''Estou muito excitado'', admite, face à possibilidade de mudança de gênero.


