Quero ter mais troço
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de maio de 1999
Roberto José da Silva 
Duas pombas brancas procuram alimentos em volta de um bueiro na esquina da Monsenhor Celso com Marechal Deodoro. São três horas da manhã na Curitiba que tem apenas um dono: Dalton Trevisan. Um casal de negros atravessa a avenida. Devem ter saído de um daqueles hotéis da Rua Riachuelo. Zeca Baleiro canta Sérgio Sampaio no carro e eu preciso de dinheiro. Passo o cartão na porta e na máquina. Sei a senha de cor. O banco se recusa a me dar um tostão. Estourado. O carro desliza a 20 por hora e, com o que me resta de dinheiro, compro um aditivo na farmácia. Desses permitidos/proibidos. No rótulo azul, um cavalo voador. Tomo em dois goles. Espero as asas, mas apenas sinto que minha barriga cresce mais um pouco. Segundo uma pesquisa ainda não divulgada no Fantástico, o ser humano normal precisa flatular 16 vezes ao dia. Há um débito monstruoso em minha conta particular. Não sei porque pensei nisso. Ah, sim, a barriga inchando. Talvez eu voe quando tudo sair de uma vez. Será que a dor vai junto? Espero o dia clarear. As horas demoram. Vou ligar para a terapeuta que, outro dia, encontrei no shopping. Fazia tempo. Foi a primeira a me aguentar. Foi durante uma das conversas com ela que descobri que mamãe também não fazia carinho. Por isso fiquei vesgo durante uma semana porque não me deixaram assistir O Maior Espetáculo da Terra naquele cinema em São Paulo. Eu tinha quatro anos. A censura era cinco. Fui levado pela minha tia preferida. A do Rio. Jane. Eu não Tarzan. Nem chita. Fiquei na vontade. Me concederam só entrar no cinema e ver um pedacinho do filme. Depois, o médico da família não conseguia descobrir a causa do estrabismo repentino. Precisou o velho Januário, benzedor da vila, fazer suas orações, colocar santinho no meu pescoço e pedir que eu não o tirasse até o cordão apodrecer e cair sozinho. Será que me curei? Não. Jane morreu aos 37. Câncer. Eu fiquei mais sozinho e não sei por que estou contando tudo isso. Talvez porque descobri que, de fato, nós estamos nessa vida para descobrir que a briga sempre foi e sempre será interna. Nós conosco. Parece nome de tempero. Sim, o tempero da existência. Hoje, agora, amargo. Mas tem o doce. Ainda bem. Teoricamente alguém que ganha mais de vinte salários mínimos, tem filhos, plantou árvores, escreve todo dia partes de um livro, fez casa, amou, ama, é amado, deveria juntar as mãos, olhar para o céu e dizer amém. Mas Zé Trindade sempre constatou: O que é a Natureza!!! Um menino de 17 anos, cabelo tipo O Último dos Moicanos, tenta voltar à sanidade numa clínica nesta cidade onde o topete das meninas ainda continua recebendo laquê. Toma tudo desde os 13. O litro de chá de cogumelo fez sua nave arremeter para baixo no ano passado. O que ele buscava eu não encontrei. Ninguém encontra. Eu tomo água com gás e fico louco. Antes tomava Zulu 90 graus, comia farinha pelo nariz e encanamentos e babava esperando a morte chegar. Na Mateus Leme botei o Fusca vermelho na contramão e não encontrei o Scania de narizão vermelho. Deus existe? Quantas vezes o mataram? Ele não quis minha companhia. Nem o Diabo naquele dia em que tive convulsões no quarto do hotel de três estrelas da Rua Muricy. A vida é bela. Acabei comprando um filme para fotografar o sol nas árvores nas primeiras horas da manhã. Vi o pezinho de Lolita no filme de Kubrick e isso me deu um alento. Subo e desço a montanha russa. O Brasil tem jeito. Salve o lindo pendão da esperança. Não me segurem que eu sempre vou querer ter um troço. Jane.
Roberto José da Silva é jornalista em Curitiba


