"Quero ser John Malkovich" chega às telas amanhã2/Mar, 16:11 Por Luiz Carlos Merten São Paulo, 02 (AE) - Spike Jonze conseguiu o aparentemente impossível - enfeiar a deusa Cameron Diaz em "Quero Ser John Malkovich". O filme estréia amanhã (03). Concorre ao Oscar em três categorias - melhor direção (Jonze), roteiro original (Charlie Kaufman) e atriz coadjuvante (Catherine Keener). Não se impressione com a nova Cameron, castanha e sem o charme que fez dela uma das mais sexys entre as estrelas atuais de Hollywood. A própria Cameron adorou o trabalho com o diretor. Ele retribui, dizendo que ela é maravilhosa. Jonze falou com a reportagem pelo telefone, um dia após o anúncio dos indicados para o prêmio da Academia de Hollywood. Estava entusiasmado com a indicação de seu nome, mas sabe que é azarão na disputa. "Afinal, o filme não foi indicado". Até por isso, jura que as outras duas indicações, de roteiro e atriz coadjuvante, são mais sérias. "Catherine é a minha candidata: é fascinante e talentosa; estou muito contente por ela". Também estava eufórico com a indicação de Kaufman. "Esse roteiro é o sonho de qualquer diretor; o mais criativo que me foi dado conhecer ultimamente". Só lamenta uma coisa: "Sinceramente, estou decepcionado por John (Malkovich) não ter sido indicado; ele é a alma do nosso filme e um dos grandes atores da nossa época". Desde que estreou nos Estados Unidos, no ano passado, "Quero Ser John Malkovich" virou objeto de um culto. Numa entrevista, o diretor de teatro Gerald Thomas considerou-o um dos filmes-faróis das safras recentes do cinema americano: é ousado e criativo, aponta caminhos, disse ele. É um filme sobre a identidade do desejo e a fragilidade do edifício mental das pessoas na época conturbada em que vivemos. Chamado a resumir o próprio filme, Jonze diz: "É um filme sobre Nova York, sobre um artista de marionetes, sobre um casamento trágico, um chimpanzé, uma recepcionista, outra mulher um ator, a New Jersey Tumpike e um prato de lasanha". Contra o reducionismo - Tudo começa quando um marionetista desempregado vai trabalhar como arquivista num escritório e descobre, acidentalmente, uma passagem para o cérebro do célebre ator John Malkovich. Entrando por esse túnel escavado na parede de um edifício meio misterioso, qualquer pessoa pode ser Malkovich por 15 minutos. Forma-se uma extensa fila de interessados em viver seus 15 minutos de celebridade. Lembra alguma coisa? Andy Warhol, claro, mas o diretor decepciona quem apostar na obviedade. "Andy é uma referência, com certeza, mas muito vaga; nem Charlie (o roteirista) nem eu pensávamos nele com muita insistência; está lá, mas não é o tema do filme". Jonze, por sinal, é um tanto reticente à idéia de assinalar os grandes temas de "Quero Ser John Malkovich". Acha que é tarefa para críticos e espectadores. "É reduzir a riqueza de um filme que fala sobre sexo, amor e identidade; qualquer reducionismo é empobrecedor, ainda mais nesse caso, pois se trata de um roteiro muito intrigante que eu tentei expressar em imagens que aumentassem ainda mais a curiosidade dos espectadores". Ele quis fazer um filme surpreendente. Por conta dessa surpresa, tão ansiosamente buscada, justifica o ato de enfeiar a linda Cameron Diaz. Mas nega que ela esteja feia: "Cameron é bonita em qualquer circunstância". Diretor de comerciais e videoclipes, Jonze há tempos sonhava com uma carreira cinematográfica. O roteiro de Kaufman veio ao encontro do que ele queria fazer. A própria maneira como ele chegou a esse roteiro daria um filme: "Ele me chegou por meio do amigo de um amigo que era amigo do irmão de Charlie; os dois serviram juntos no Exército, no Panamá". Há quatro, cinco anos, Jonze descobriu o roteiro. Levou todo esse tempo para retrabalhar o material com Kaufman e tornar viável, economicamente, a produção. Analisa o atual momento de Hollywood: "Os grandes estúdios descobriram o filão da produção independente e querem fazer filmes com a cara dos indies; isso termina por dificultar a produção autenticamente independente". Ator de um pequeno papel em "Três Reis" ("Sou amigo do diretor David O. Russell; quando ele me pediu, não pude recusar"), Jonze é casado com Sofia Coppola, a filha do grande Francis Ford e atriz de "O Poderoso Chefão 3". Sofia também é diretora. "O filme dela, "The Virgin Suicides", é muito bom", ele define. Como é ser casado com uma diretora? "Nós dois nos apoiamos mutuamente em nossos projetos". E como é ser genro de Coppola? "É um dos grandes do cinema; respeito muito a saga do Chefão".