Quero mais é trabalhar
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quinta-feira, 18 de setembro de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
Milton Nascimento amargou aquela história da doença, no final do ano, quando era tido e havido como portador do vírus da Aids, deu a volta por cima e hoje, merecidamente, saboreia os frutos da vitória. Na entrevista coletiva, concedida na tarde de quarta-feira, em Curitiba, ele era o contrário daquilo que muito se falou e se escreveu sobre ele, o de um homem de poucas palavras.
Disposto e atencioso só foi breve numa resposta. Um repórter perguntou sobre sua saúde. Vai bem, obrigado. A senha valeu para um assunto que a estas alturas já ficou para trás. Pediu aos companheiros de palco, os curitibanos, que dessem uma força (os músicos chegaram ontem), acompanhando-o na sessão. Ele morre de vergonha em falar com a imprensa, segredou Maurício Vogue. Além de Maurício, estavam Fabiano Medeiros, Fábio Tavares e Felipe Grinvan.
Cara chatoMilton contou como foi que ele se aproximou do diretor Gabriel Villela, de quem é fã de carteirinha. Eles nunca tinham se visto pessoalmente, e Gabriel jamais assistira a qualquer de seus shows. O primeiro contato foi um telefonema do compositor para o diretor. Villela atendeu e em seguida houve um barulho de desmaio, brinca Milton.
A princípio o espetáculo se chamaria Um Salto Moral para a Vida, daí a necessidade dos acróbatas em cena (Milton toma o cuidado de falar acróbatas ou acrobatas - a gente tem que falar os dois senão acham que falei errado). O diretor saiu à procura e encontrou o ideal em Curitiba.
Tambores de Minas está sendo uma das experiências mais gratas para o cantor. Ele revela que antes de trabalhar com a música, atuou no teatro em São Paulo, com Plinio Marcos. Até deixar-se absorver pela música. Porém, trabalhar com um diretor teatral está sendo uma experiência muito legal. Muito nova e muito legal.
Outra coisa. Milton não aceita essa imagem de tímido e retraído. Os 30 anos de carreira guardam em seus arquivos uma temporada com o Som Imaginário, em 1970, em que ele cantava quase pelado. Era a coisa mais louca que alguém pode imaginar. Com palco não tenho problema. Agora, eu gosto muito de ser ator, reforça.
AlimentoO espetáculo que deverá continuar ainda por um bom tempo - há previsão de viagem para a Europa em meados de 1998 - reflete o disco:
- Me deu saudade de buscar aquelas coisas que vivi na infância e parte da juventude - porque ainda estou dentro dela, então o show passa por tudo isso. Ele é muito pra cima e ao mesmo tempo muito denso. A gente não quer fazer ninguém chorar, mas as pessoas deixam cair as lágrimas nos momentos mais alegres de tanta emoção. Acho que esse encontro da música com o teatro foi o que deu essa coisa.
Muito astral, muita luz. Milton Nascimento quer nesta época de sua vida mostrar às pessoas que não guarda nenhum rancor dos momentos difíceis experimentados meses atrás. Quero mais é trabalhar e o que me alimenta são os meus amigos, meus amores, meus pais e o trabalho. Então esse show representa tudo isso, desabafa.
Esses reflexos não poderiam vir de outra forma - estão repletos das raízes mineiras. Aliás, essa volta à terra natal começou quando foi concluído Angelus, seu disco anterior. Cada faixa tinha um pouco de sua própria história, então Milton achou que era hora de transcender o disco. Fui in loco resolver as coisas mal resolvidas.
Essa viagem pelo passado/presente resultou num encontro maior com Minas, com seus pais, seus amigos antigos e, no meio disso tudo, cruzou com a folia de reis. Aí veio a vontade de trabalhar o folclore mineiro. Demorou uns três anos, porque outros projetos puseram-se à frente, mas aí está Tambores de Minas.
Clube da Esquina Tantas citações mineiras, a lembrança do Clube da Esquina é inevitável. Vai bem, completa este ano 25 anos, no maior ostracismo. Sem encontro no palco ou em disco dos velhos companheiros, sem festinha de aniversário, nem velinha no bolo para ser soprada. Cada integrante do grupo está dirigindo sua vida para seu canto. Milton fala deles:
- Lô (Borges) está preocupado em construir uma casa num lugar bonito nas montanhas, então ele vem faz os shows e volta correndo. O Beto Guedes resolveu fazer um avião porque quer voar com o filho dele, que é meu afilhado e eu não vou deixar. Ele começou a fazer o avião dentro de casa e não sei como vai ser essa história. O Ronaldo Bastos abriu uma gravadora e o Fernando Brant, pra tirar ele de casa, só a machadadas. Mas a gente tem feito músicas e somos amigos.
Eterno apaixonado por George Gershwin - sua audição habitual -, o cantor aposta num nome ainda desconhecido na música brasileira, que está gravando seu primeiro CD, o Toque de Midas, grupo do sul de Minas. É um pessoal muito legal, avisa.
TravessiaTodos se lembram: durante um espetáculo em São Paulo Milton Nascimento ainda estava convalescendo da hepatite que tanto deu o que falar, quando fez um espetáculo com coral de crianças. Ao cantar Travessia um garoto de 12 anos quebrou tudo que havia sido ensaiado - ao invés de dar as costas ao intérprete, foi o único a manter-se olhando para ele. Numa determinada frase da música, abriu-se num sorriso largo. Milton cantava e chorava copiosamente.
Então, o olhar do menino acompanha este espetáculo? Acompanha dentro da gente, responde Milton. Dentro de mim e de cada um dos que está lá no palco. Todos o conheceram, inclusive os músicos.


