Querelle acaba em bordel de Paranaguá
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terça-feira, 13 de abril de 1999
Elisa Marilia Carneiro 
Querelle é um marinheiro abençoado com a graça da beleza e da sedução. Ele é o objeto de desejo e por ele todos se encantam. O espetáculo Querelle, inspirado na obra do dramaturgo francês Jean Genet, estréia amanhã no Teatro Lala Schneider, às 21 horas. A peça fica em cartaz até o dia 2 de maio, de quinta-feira a domingo.
Dirigida por Cesar Almeida, a estória de Querelle confunde-se com a estória do submundo do mar. O seu mundo é o reverso do nosso, seu paraíso é nosso inferno. É nesse contexto, iluminado pelo lirismo da poesia de Jean Genet que se apresentam seus personagens - assassinos, ladrões, prostitutas, homossexuais, policiais, cafetões e cafetinas -, uma linhagem de personagens que o mar e o cais do porto esconde só para si e seus habitantes.
Querelle foi concebido tendo como base o texto homônimo de Jean Genet, autor de obras teatrais de caráter anti-naturalista, dotadas de uma dimensão mítica e poética, o que o coloca no patamar de um dos maiores dramaturgos do século XX. Suas obras poéticas, teatrais e narrativas possuem uma temática ligada à violência, à marginalidade e a injustiça social.
É nesse ambiente que evolui o protagonista desse romance. O estranho poder de Querelle sobre os humanos é tão perigoso que destrói a tudo por onde passa. Com ele, Genet nos faz sentir toda a estranha sedução do mal, a beleza da traição, o encanto do homicídio, vestidos com as pompas de uma transfiguração poética que dá ao mundo subterrâneo dos marginais a aura gloriosa de uma procura através dos labirintos da alma humana.
ParanaguáSegundo o diretor Cesar Almeida, este é um projeto antigo, desde que conheceram o filme em 1982. Esse romance é uma obra prima da literatura do século XX. Colocá-lo em cena, foi um desafio. Não é fácil trabalhar toda essa carga do submundo sem pudores, sem medos. O texto não é nada superficial, ao contrário, é uma obra densa, afirma.
Para compor o elenco do espetáculo, Cesar Almeida contou simultaneamente com a participação de grandes profissionais paranaenses e de expoentes da nova geração. Trouxemos o tema para a nossa realidade, para o nosso tempo, conta. O cenário de Querelle é bem próximo: o Porto de Paranaguá. O diretor pretende dar ao trabalho um clima de bordel à brasileira, bordel paranaense.
A direção musical de Plínio Campos preza pela criação de um clima contemporâneo. Os cenários de Wellington, em tons fortes e quentes representam de maneira simbólica o que pode haver entre a tênue linha que separa o desejo e paixão da luxúria e do crime.
A iluminação, também de Cesar Almeida, o os figurinos e adereços de Zenor Ribas completam o clima. A coreografia é uma criação de Fábio Tavares, membro do Cirqué du Soléil. A produção é de Isydoro Diniz.
Jean GenetNascido em Paris, em 1910, Jean Genet era filho de uma prostituta, Gabrielle Genet, e de pai desconhecido. Foi entregue a uma família de camponeses do sul da França para que o criassem. Teve seu primeiro contato com a prisão aos dez anos de idade, num escola correcional, acusado injustamente de um roubo.
Assim iniciou uma longa trajetória de delinquência. A amizade, o ódio e o crime passaram a compor seu dia-a-dia. Uma extensa lista de gangters, prostitutos, travestis, com os quais lidou no submundo das várias prisões, trouxe-lhe uma visão do mundo que utilizou na sua obra.
O primeiro romance foi Le condamné à mort, seguido de O Milagre da Rosa, Nossa Senhora das Flores, Diário de um Ladrão, e peças mundialmente famosas como As Criadas, O Balcão, Pompar Fúnebres, Os Negros, Os Biombos, entre outras.
Genet foi um dos maiores gênios da literatura desse século. Devido à comoção provocada por sua genialidade, moveu a classe de intelectuais franceses da época, liderados por Jean Cocteau e Jean Paul Sartre, que conseguiram um 1948, através de um apelo ao presidente da república francesa, Vicent Auriol, um indulto a Genet, que como resultado de sua última sentença, havia sido condenado à prisão perpétua.


