Quem Se Contenta
''Havia um país em que tudo era proibido.
Ora, como a única coisa não proibida era o jogo de bilharda, os súditos se reuniam em certos campos que ficavam atrás da aldeia e ali, jogando bilharda, passavam o dia.
E como as proibições tinham vindo paulatinamente, sempre por motivos justificados, não havia ninguém que pudesse reclamar ou que não soubesse se adaptar.
Passaram-se os anos. Um dia, os condestáveis viram que não havia mais razão para que tudo fosse proibido e enviaram mensageiros para avisar os súditos que podiam fazer o que quisessem.
Os mensageiros foram àqueles lugares onde os súditos costumavam se reunir.
Saibam - anunciaram - que nada mais é proibido.
Eles continuaram a jogar bilharda.
Entenderam? - os mensageiros insistiram. Vocês estão livres para fazer o que quiserem.
Muito bem - responderam os súditos. Nós jogamos bilharda.
Os mensageiros se empenharam em recordar-lhes quantas ocupações belas e úteis havia, às quais eles tinham se dedicado no passado e poderiam agora novamente se dedicar. Mas eles não prestaram atenção e continuaram a jogar, uma batida atrás de outra, sem nem mesmo tomar fôlego.
Vendo que as tentativas eram inúteis, os mensageiros foram contar aos condestáveis.
Nem uma, nem duas - disseram os condestáveis. Proibamos o jogo de bilharda.
Aí então o povo fez uma revolução e matou-os todos.
Depois, sem perder tempo, voltou a jogar bilharda.''
(Conto de Italo Calvino escrito em 1943, publicado no livro ''Um General na Biblioteca'')





