Quem pode, pode!
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de maio de 1997
Ana Cristina Ioselli TV Press 
Arnaldo Alves/Arquivo FolhaNey Latorraca: Faço o que quero, com quem quero e na hora que queroNey Latorraca tem uma teoria: quanto menos aparecer na TV, mais glorioso será seu retorno. Por isso, mesmo contratado da Globo, fica anos sem dar as caras no vídeo. Eles sabem dessa minha postura e me respeitam, afirma, sério. Desde Vamp, quando interpretou o memorável vampiro Vlad, Ney avaliou muitos convites. Até então, nada o agradava. Do breve fiasco Casa do Terror, nem se lembra. Mas achou que agora era hora de voltar.
Ser dirigido por Jorge Fernando e contracenar com a diva Fernanda Montenegro teve peso fundamental para que aceitasse o papel do advogado Silas, de Zazá, próxima novela das sete da Globo, que estréia segunda-feira. É um personagem muito bom, que vai tomar conta de tudo que estiver à volta da Zazá, adianta.
Ney se empolga. Aos poucos, vai deixando a postura circunspecta de lado e permite que seu jeito brincalhão aflore. Falar muito, contar casos e chamar atenção é o que ele gosta. Mesmo quando vai contar uma série de problemas de saúde que teve ano passado, assume um ar gaiato e arranca gargalhadas de quem está à volta.
Quando estava prestes a estrear o espetáculo Quartett, em São Paulo, foi derrubado três vezes pelo próprio corpo. Primeiro, escorregou na garagem e quebrou o pé em vários lugares. Operou, ficou engessado 40 dias, fez fisioterapia e, quando já ia retomar os ensaios, um novo problema apareceu. Estava com duas úlceras perfuradas e, por fim, já no hospital, descobriu que tinha uma diverticulite.
Começa a performance. Muda a voz e faz caras e bocas para imitar um enfermeiro-tiete que começou a se jogar sobre ele no leito do hospital. Sabe aquela pessoa toda suada que começa a se esfregar em você?, provoca.
Mas, aos 52 anos de idade, este paulista de Santos diz que algo vai mudar em sua vida. E anuncia o projeto de inaugurar um centro cultural, com filiais no Rio e em São Paulo, que ministre cursos e tenha teatros. Entre os projetos estão, também, um filme sobre Juscelino Kubitschek, um média-metragem para TV a cabo e um testamento onde deixa todos os bens para instituições de caridade.
O que o fez voltar à TV neste momento?
Ney Latorraca - Quero acabar com um certo folclore. Quando você fica doente as pessoas ficam meio assim... O mundo inteiro vive a neurose da perda. Então, achei que era o momento certo de voltar. E esta novela é muito bem escrita pelo Lauro César Muniz, tem a direção do Jorge Fernando, que está em ótima fase, e tem a Fernanda Montenegro. Sou meio ciclotímico. Tinha feito Um Sonho a Mais, em 86, depois Vamp, em 91, e agora faço Zazá. Sou contratado da Globo até 2001.
Os convites que fizeram a você nesse meio tempo não agradaram?
Ney Latorraca - Acho que sou um dos poucos atores brasileiros que pode se dar a esse luxo. Faço o que quero, com quem quero e na hora que quero. Sempre foi assim. Prefiro passar fome ou vender sanduíche na porta da Globo do que me vender para fazer uma novelinha, uma bobagem, contracenar com pessoas que não gosto e ser dirigido por pessoas que não gosto... E depois, quando se aparece pouco, a volta vira um acontecimento. Meu ego está lustradíssimo. Todo mundo me trata muito bem. Faço uma bagunça enorme com a equipe técnica. Gosto muito de bater nas pessoas, sempre na maior brincadeira. E essas pessoas estavam todas em fila para serem esbofeteadas e mordidas no meu primeiro dia de gravação.
Como é o seu entendimento com a direção da Globo?
Ney Latorraca - A Globo me respeita porque é um lugar que conquistei. Cada um tem a sua trajetória. Teve uma época que conversei com o Boni e falei que se eu desse uma parada de uns dois anos e fizesse Othelo, de Shakespeare - o personagem era o Iago, que é um dos melhores papéis da dramaturgia mundial -, eu ia voltar muito melhor para a televisão.
E o Boni não fez nenhuma objeção?
Ney Latorraca - Ele disse que tudo bem. Fiquei dois anos em São Paulo, voltei e fiz Coração Alado. Quando comecei a gravar, cheguei com muita informação. Trabalhar do lado de um homem bárbaro, que é o Juca de Oliveira, foi ótimo. E agora estou vindo de metade de O Mistério de Irma Vap, O Médico e o Monstro, Don Juan, Rei Lear e de Quartett, que é uma mudança radical na minha carreira de ator de teatro, porque não é uma comédia leve.
E como vai ser o seu personagem em Zazá?
Ney Latorraca - É um personagem delicioso, que tem muita força na história. O Silas está sempre colado com a Zazá, de Fernanda Montenegro. Sou um advogado que toma conta das coisas dela. Da roupa que ela vai usar, do que ela vai fazer e dos filhos também. Tomo conta das pessoas que estão à volta dela, mas muito discretamente. No início, sou discreto, mas daqui a pouco vou estar de baiana na TV.
Trabalhar com a Fernanda Montenegro é muita responsabilidade?
Ney Latorraca - Estou apavorado. Como sou tiete da Fernanda e tenho muito respeito por ela, sei que vou balançar um pouco. Já era para eu ter trabalhado com a Fernanda antes. Uma vez, ela me ligou dizendo que ia me mandar um texto. Eu disse que tudo bem. Quando o texto chegou, coloquei de lado e nunca respondi. Este episódio está fazendo 30 anos. Não sei o que aconteceu comigo. Depois fui assistir à peça. Era um papel lindo em que o Zanoni dava um banho de interpretação no espetáculo A Mais Sólida Mansão. Com Hector Babenco fiz a mesma coisa. Às vezes me dá um clique, digo que não vou ligar de volta e deixo para lá. Não é nem má vontade, nem coisa da minha cabeça. Acho que meu organismo estava querendo ficar quieto.
Tem alguma coisa a ver com espiritualidade ou feeling?
Ney Latorraca - Não. Acho que era falta de respeito mesmo. Outro dia tomei um susto quando fui mexer nuns textos e dei de cara com um bilhete da Fernanda Montenegro, de 1974, que na época nem havia lido.
Voltar à fazer novela depois de muito tempo causa um certo estranhamento para o ator?
Ney Latorraca - No Brasil, como as pessoas não têm memória, é preciso aparecer de vez em quando. Televisão é um gênero de representação completamente diferente do teatro. E é muito difícil de acertar. Principalmente quando o ator é muito teatral, como é o meu caso. Comecei a encontrar a linguagem da televisão a partir da minissérie Anarquistas Graças a Deus. Também demorei a aprender a fazer cinema. O trabalho do ator é um exercício constante. Não posso falar que sou um ícone, odeio essas coisas. Mas também provoquei muito a imprensa com as minhas frases de efeito.
Que tipo de frases?
Ney Latorraca - Falava: vou ser o maior ator do Brasil, agora chegou o namoradinho do Brasil. Uma vez dei uma entrevista enorme para o Mino Carta e falei: o Brasil tem sua nova Carmem Miranda. E me vesti de Carmem Miranda. Agora, quando olho para trás, penso: por que não me prenderam, não me deram calmantes, não me colocaram numa clínica?
E o que mudou em você desse tempo para cá?
Ney Latorraca - Nada! Continuo do mesmo jeito. Estou como se estivesse em Santos, no recreio do meu ginásio, na quarta série. Já era totalmente dramático nessa época. Sou uma mistura de Irene Papas com a Dercy Gonçalves. Sou muito criança. Mas o Jorginho (Fernando) disse que ia segurar as minhas rédeas.
Você é muito gaiato?
Ney Latorraca - Brincava com a minha mãe perguntando por que Deus não tinha me dado pelo menos cinco minutos na vida para eu ser como o Tarcísio Meira. Reagir placidamente diante de qualquer notícia, mesmo quando fosse o fim do mundo. Mas um dia resolvi interpretar o Tarcísio. Cheguei na Globo e peguei um jornal, - sim porque a primeira coisa que eles pegam quando chegam é um livro ou um jornal - e sentei num canto, na sala de atores. Já estava louco para plantar bananeira, falar, contar histórias... Adoro contar casos, porque vou aumentando as histórias, minto demais! Mas a essas alturas já tinha começado um ti-ti-ti, todo mundo querendo saber o que tinha acontecido comigo. Todo mundo brinca me chamando de tio Ney, Sinhozinho, mas passei calado. Fiz um clima, porque as pessoas adoram. Aí, de repente, vi um cigarro ultrapassando o jornal. Era um câmara amigo meu querendo saber o que estava acontecendo. Vieram todos em cima de mim. Aí fui lá, mordi a bunda da cabeleireira, fingi que batia no camareiro e começou a festa. Mas teve um dia que foi pior.
O que aconteceu?
Ney Latorraca - Estava todo composto porque ia entrar a qualquer momento em cena. Mas, no meio de uma brincadeira, comecei a rolar com o cabeleireiro no carpete. Foi quando vi uns pezinhos se aproximando. Era o Boni, o Dr. Roberto Marinho e o presidente de uma televisão alemã. Pois eles passaram por mim como se não estivesse acontecendo nada e seguiram em frente. Fiquei quieto, esperei eles virarem a esquina do corredor e voltei ao meu normal.


