Quem consegue entender essa letra?
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Ana Paula Nascimento<BR>Reportagem Local 
Praticamente em desuso, o ato de escrever a mão está cada vez ficando mais restrito às atividades escolares. Teclar ou digitar gradativamente substitui o verbo escrever e hoje as telas do computador ou visores do celular viraram papeis virtuais.
Praticamente um desenho, a habilidade de escrever a mão, de desenvolver a letra cursiva ou de mão começa a ser desenvolvida por volta dos seis anos, quando se inicia de forma mais direcionada o processo de alfabetização. Antes disso, na educação infantil, as atividades lúdicas e recreativas já vão abrindo espaço para o desenvolvimento do universo das letras e seus significados.
A capacidade de fazer uma letra cursiva legível insere uma série de aprendizagens. A criança precisa estar amadurecida para essa etapa que não deve ser acelerada, pois envolve conhecimento do corpo (já que a escrita envolve coordenação motora), de sua dominância (percepção dos lados esquerdo e direito), da direção da letra, entre outras coisas, além do aluno realmente estar no nível silábico alfabético, quando conhece todas as letras e seus sons, tem uma boa compreensão da língua e das funções da escrita, explica Olinda Rosa Ribas, assessora pedagógica de Língua Portuguesa da Secretaria Municipal de Educação.
Com a modernização dos métodos de alfabetização, influenciados principalmente pela linha construtivista, o velho caderno de caligrafia deixou de ser valorizado. A cópia não é mais preconizada e todo o tipo de texto utilizado em sala de aula deve ser contextualizado para dar mais sentido a ele e favorecer a compreensão textual do aluno.
Mas na Escola Municipal Maria Carmelita Vilela Magalhães, no Jardim Europa, a aplicação de métodos mais modernos de alfabetização não dispensou o uso do tradicional caderno de caligrafia. Na turma da segunda série do Fundamental 1, uma vez por semana todos os alunos participam de um trabalho direcionado de caligrafia. Acredito que isso ajuda o aluno a ter mais desenvoltura na escrita. Acho que vale a pena insistir para que ele aprenda a fazer uma voltinha correta da letra a, por exemplo, que vai ajudá-lo a elaborar outras letras como o g e o q, destaca a professora Audrey Angélica Sefrin.
E essa insistência evita que mais tarde, com o domínio da escrita, o aluno relaxe demais, deixe a letra muito solta e passe a escrever de forma desleixada, sem capricho e muitas vezes de forma ilegível, acrescenta.
A supervisora pedagógia Roseli Conceição Bernini Romanha comenta que alguns pais já criticaram essa postura da escola, chegando a dizer que não haveria sentido em valorizar a escrita a mão, algo considerado por eles como obsoleto. Nesse caso, explicamos que não é exigida a perfeição do traçado das letras, mas que ele precisa ser trabalhado para garantir uma escrita correta e clara. Não é um treino por si só, como era antigamente. Os textos são sempre contextualizados e respeitamos o traçado característico de cada um, pontua.
Durante a observação da aula da professora Audrey, a primeira coisa que chama a atenção é a sua letra bem desenhada e legível na lousa. Modelo diário de letra para os alunos, ela faz parte da maioria dos professores que têm letra de professor. Na verdade, a minha letra não era assim. Foi durante o curso de magistério que aprendi a fazer a letra pedagógica, que deve ser bem traçada e ter boa legibilidade, pois sabemos que os alunos na fase de alfabetização irão se espelhar nela, afirma.
Após os alunos ouvirem a música A Pulga (composição de Vinicius de Moraes e Toquinho), um bate-papo entre eles e a professora aborda o conteúdo textual da música antes de ela redigir na lousa (com traços semelhantes ao do caderno de caligrafia) o trecho da letra musical que os alunos deveriam transpor para o caderno de caligrafia.
Com a atenção amorosa que essa fase exige, ela vai passando de um a um para verificar o andamento da atividade proposta. Os alunos parecem gostar do que fazem e não se constrangem quando ela pára, calmamente aponta o trecho incorreto, utiliza a borracha e pede para eles tentarem novamente.
A importância da caligrafia no vestibular
Na segunda fase do vestibular da Universidade Estadual de Londrina, todos os candidatos devem redigir uma redação. Não há nenhuma exigência quanto ao tipo de letra utilizada pode ser letra cursiva, de fôrma (caixa alta) ou as duas juntas , mas a legibilidade é indispensável. Às vezes, corrigimos redações em que o aluno começou redigindo de um jeito e terminou de outro, talvez porque já estivesse com a mão mais cansada, comenta Elaine Fernandes Mateus, coordenadora da Coordenadoria de Processo Seletivo (Cops) da UEL.
A clareza do texto e, consequentemente da letra, é fundamental, avalia Elaine, e o que não dá para se ler, acaba ficando sem nota, em uma pontuação que varia de zero a dez. E um aluno que obtenha zero ou uma nota baixa na redação, provavelmente, na linha de corte (que engloba a média de desempenho entre todos os candidatos por curso), terá uma classificação muito baixa.
Em média, oito mil redações são corrigidas por vestibular. O trabalho de correção envolve a participação de 10 a 12 professores da instituição. Cada redação é lida por pelo menos dois professores, que recebem pacotes com 100 redações, que são identificadas apenas com o número de inscrição dos candidatos. (A.P.N.)
" GARRANCHOS "PODEM INDICAR DISTÚRBIO DE APRENDIZAGEM
Na área da psicopedagogia, os problemas mais comuns na fase da alfabetização são a desortografia e a disgrafia. Os famosos garranchos, que popularmente no dia a dia escolar referem-se à escrita ilegível ou incorreta, podem ser apenas uma expressão de desleixo do aluno ou um sinal de distúrbio na aprendizagem, que exige avaliação especializada.
Como explica a psicopedagoga Wanda Marly Deveglieri, da Secretaria Municipal de Educação, a desortografia é a dificuldade ou distúrbio da aprendizagem e do desenvolvimento da habilidade da linguagem expressiva através da escrita. Engloba a dificuldade de soletrar uma palavra em voz alta e escrever corretamente. Compõe um conjunto de erros da escuta que afeta a palavra escrita. Por exemplo, a criança escreve cafalo ou cabalo ao invés de cavalo.
Já a disgrafia refere-se a um ato motor. É a incapacidade na integração dos sistemas visual e motor. O aluno olha a letra e na hora de traçar não consegue fazer. Resulta em uma escrita disgráfica, com incorreções, traços pouco precisos, demasiadamente fortes (que chegam a marcar o papel), sinais gráficos não diferenciados na forma e no tamanho, desorganização da escrita e irregularidade no movimento, comprometendo a globalidade do texto.
Em ambos os casos, é necessária a avaliação de um psicopedagogo, que pode fazer o acompanhamento do aluno, resgatando o processo de alfabetização e verificando a questão da maturidade neurológica. Algumas vezes as dificuldades na aprendizagem da escrita também podem indicar problemas visuais e até de ordem emocional, como situações de estresse, abuso e violência sexual, lembra a psicóloga Fátima Cristina Celli Malvezi, também da Secretaria Municipal de Educação. (A.P.N.)


