Mário CésarOs Parlapatões mostram ‘‘U Fabuliô’’ nas ruas: o público correu atrás para ouvir ‘‘causos’’ e participar do espetáculoFoi chegando gente, chegando gente, chegando gente. E a trupe de atores, no centro das atenções, ia se maquiando, maquiando, maquiando. Caras pintadas, roupas espafalhatosas sobre os corpos, uma rápida concentração e, com alguns minutos de atraso, o grupo Parlapatões, Patifes & Paspalhões já estava pronto pronto para tomar conta da triste praça ao lado da Catedral de Londrina e conjugar o verbo gargalhar na terceira pessoa do plural.
Forma-se uma imensa roda. Até uma escadaria da triste praça se transforma em arquibancada. De repente, a imensa roda se abre para entrar um barco com asas. E atrás do barco com asas, a trupe entra em cena tocando exóticos instrumentos de sopro, alguns com bocal feito de garrafas de plástico. Começa a apresentação de ‘‘U Fabuliô’’ que, durante quase 1h30, prendeu ontem a atenção de pessoas dos mais diferentes humores que passavam pela triste praça Floriano Peixoto.
Todos riram, alguns mais, outros menos. Mas todos que assistiram a esse espetáculo de rua riram. Riram dos ‘‘causos’’ e, principalmente, das gags dos atores. De tiradas marotas como essa: ‘‘As mulheres gostam de coisas sem importância... como os homens’’. Há deboche musical, como a caixa de som cuspindo um ‘‘Louvado Seja’’ em versão heavy metal.
O fio condutor do espetáculo é alinhavado por um vendedor ambulante que começa a contar sua história e também de outros personagens risivelmente malucos. A história é atemporal. Passa-se em algum canto de um possível Brasil nordestino. Há, por trás de trapos do corpo, uma possível sofisticação de comédias medievais. Tem tom de farsa. Tem um quê de circo. Tem um monte de quês...
E é com esses ‘‘quês’’ que a trupe do Parlapatões, Patifes & Paspalhões destila com maestria e propriedade todo o seu humor aparentemente fácil. Situações absurdas e clichês arrancam gargalhadas - o texto esquecido da atriz; o menino, escolhido pela atriz, ganha elogios e ‘‘bofetadas’’; o carro de som anuncia que o circo está na cidade e o ator pede silêncio.
O texto não tem moral da história como as fábulas tradicionais. Nem dá tempo de pensar em moral da história diante do desempenho dos atores. Todos falam a mesma língua, tem o mesmo jeito de corpo, estão para o que der e vier. E o público, afogado em gargalhada, não consegue perceber a interpretação sofisticada da trupe. Riem e não viajam, por exemplo, no surrealismo barato que surge através de seios em forma de mamadeiras de nenês.
O espetáculo viciou o público em risadas. Rir é preciso e a trupe sabe disso. O público de tão envolvido não consegue arredar o pé. É hora de almoço e ninguém arreda o pé. Está quase terminado o horário de almoço e ninguém arreda o pé. O espetáculo, por vezes, passa a sensação de que nunca vai terminar e ninguém arreda o pé.
Mas o espetáculo termina. Palmas e palmas. Clap, clap, clap. Jornalistas vão atrás da opinião do público. Respostas óbvias - ‘‘legal’’, ‘‘chocante’’, ‘‘foi 10’’, ‘‘devia ter mais’’, ‘‘adoro espetáculo de rua’’, ‘‘bonito’’ e etc e tal. Só se esqueceram de dizer que além de fantástica, a trupe dos Parlapatões acabou rimando graça com praça. Para quem perdeu a rima, os Parlapatões voltam a se apresentar no mesmo local, na próxima segunda-feira. Ainda durante o Filo, o grupo vai apresentar, nos dias 4 e 6 de junho, o espetáculo ‘‘Quadros’’.

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