“Queer”, ou o medo da solidão
Longa, em lançamento mundial, traz a história de um expatriado em terras quentes, amante das favelas e do sexo casual
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de janeiro de 2025
Longa, em lançamento mundial, traz a história de um expatriado em terras quentes, amante das favelas e do sexo casual
Carlos Eduardo Lourenço Jorge - Especial para a Folha 

Por mais de trinta anos, a segunda novela do escritor americano William S. Burroughs, “Queer” (1985), foi rejeitada pelo conteúdo homossexual por editores da ACE Books, e considerada um mito, à exceção de alguns iniciados beatniks como Allen Ginsberg ou Jack Kerouac, que receberam uma cópia do manuscrito original do próprio autor.
Escrita em 1952, um ano após o autor matar acidentalmente sua esposa Joan Vollmer durante episódio confuso em que alegou estar bêbado, “Queer” foi, digamos, canibalizado pelo próprio Burroughs, que usou várias partes para completar outro texto que hoje se conhece como “Junkie”, publicado em 53 sob o pseudônimo de William Lee, seu alter ego e protagonista.
Ambas as obras (e mais “Naked Lunch”, de 59), seu trabalho seguinte) são crônicas das experiências do escritor, personagem reverenciado pelos membros daquela Geração Beat: em “Junkie” ele descreve seu vício em drogas na primeira pessoa com uma visão clínica, enquanto em “Queer”, suas aventuras escritas em terceira pessoa, narram a viagem de Lee ao México e à América Latina, suas experiências homossexuais e sua busca infrutífera e obsessiva pela erva alucinógena ayahuasca.
Uma história de amor
Assim como o romance, o longa “Queer”, no momento em lançamento mundial (inclusive em Londrina), é a história de um expatriado em terras quentes, amante das favelas e do sexo casual. Mas também é uma história de amor. Adaptar para o cinema qualquer trabalho de William S. Burroughs não seria nunca tarefa das mais simples e fáceis, o que é demonstrado pelos fatos. Ou melhor, pela falta deles: até agora, apenas o “exótico” David Cronenberg ousou trazer para a tela um dos textos essenciais do grande nome da geração beat, “Naked Lunch” (no Brasil, “Mistérios e Paixões”, num filme tão surpreendente quanto o texto original).
O cineasta Luca Guadagnino declarou inúmeras vezes que a leitura de “Queer” – embora publicado tardiamente, mais de três décadas depois de ter sido escrito –, desde sua adolescência gerou imediatamente a tentação de transformar os parágrafos em cenas. Por fim, com roteiro de seu colaborador em “Rivais”, Justin Kuritzkes, o diretor de “Me Chame pelo Seu Nome” realiza aqui um retrato de William Lee que não deixa nunca de ser pessoal, desigual, deformado e quase sempre intenso.
Se algo não pode ser negado ao italiano é sua atitude de confronto em relação aos cânones do cinema industrial global; e algo semelhante pode ser dito sobre Daniel Craig, cujo alter ego de Burroughs é exatamente o oposto da testosterona desenfreada de James Bond, personagem que ele interpretou nos últimos cinco filmes da franquia.
Em linhas gerais, a história de Lee é a história de um homem solitário, um amante disposto a compartilhar seus dias e, principalmente, suas noites. É também, durante a segunda metade da narrativa, uma viagem ao interior da América do Sul em busca da ayahuasca, aquela droga alucinógena que, na mente febril do protagonista, é capaz de permitir a telepatia entre humanos.
Trilha sonora
Lee encontra, em sua busca interior, num dos bares onde é assíduo, o jovem Allerton (Drew Starkey) , alguém que, a princípio, não parece ter mais interesse nele do que em conversas leves. Mesmo sendo uma novela “infilmável” no sentido literal, previsivelmente “Queer”, o filme, é fiel à essência do livro, e por isso permite-se liberdades criativas suficientes e necessárias.

Entre outras coisas, lançar mão de uma trilha sonora eclética, profusa e anacrônica, que vai de Prince ao Trío los Panchos, e daí ao New Order e ao Nirvana (há inclusive Caetano Veloso) acompanhando os passos do apaixonado Lee e de seu amante Allerton, cujo jogo de atração e repulsa, de dedicação e despeito os transforma em um par de ímãs humanos em rotação perpétua. Aqui, do que se trata mesmo é da solidão, daquele pior medo que é sempre da solidão. Algo que Lee conhece muito bem e tenta rejeitar a qualquer custo, com o toque de pele com pele ou sob o efeito de produtos químicos. Afinal, é disso que se trata.


