Uma produção impressionante, e especialmente a força extraordinária da banda, compensam em parte os lugares comuns, as superficialidades e as debilidades da história, roteirizada por Anthony McCarten, até então um impecável expert em cinebiografias - "O Destino de uma Nação", "A Teoria de Tudo".

Freddie Mercury e Rami Malek, seu intérprete no filme: para alguns, falta o físico apropriado para o papel
Freddie Mercury e Rami Malek, seu intérprete no filme: para alguns, falta o físico apropriado para o papel | Foto: Divulgação



Já eternizado nas bilheterias (U$ 165 milhões em um mês de exibição, somente nos EUA), "Bohemian Rapsody" tem tantos elementos para ser destacada como flancos por onde pode ser questionada. Aí depende de cada espectador, mais ou menos fanático por Queen ou mais ou menos exigente em questões dramáticas e narrativas, distinguir se a balança pende para o lado positivo ou não.

O que está fora de dúvidas é que o filme sobre Fred Mercury e sua relação artística e afetiva com o resto da bem sucedida banda inglesa busca e consegue brilhar satisfatoriamente conduzida por formulas e convenções das biopics musicais, mas dividido entre o que quer e o que pretende ser. Desta maneira, sua abordagem aos aspectos mais conflitantes da personalidade do cantor e líder (assim como sua homossexualidade e a AIDS) é tímida, puritana e não raro estereotipada.

O filme despacha mais ou menos sumariamente os outros membros da banda para focar na figura carismática e extravagante de Freddie, construindo dele um retrato esquemático, embora válido, que leva o espectador da ostentosa era glamorosa de "Killer Queen" para o êxtase catártico do concerto do Live Aid em 1985 - a minuciosa reconstrução de época e a primorosa produção musical com ênfase nas gravações ao vivo são momentos emblemáticos e plenos de empatia. Mas nos 134 minutos se acumulam também cenas medíocres e diálogos tão didáticos quanto forçados.

Neste sentido custa acreditar que um roteirista sólido como McCarten tenha concebido uma estrutura tão superficial quanto elementar. Mas também deve-se ter em conta que na direção houve problemas, já que Bryan Singer, embora referido nos créditos finais, foi afastado em meio às filmagens por acusações de assédios e abusos sexuais, sendo substituído por Dexter Fletcher.


Quando ainda nem se pensava em cunhar a sigla LGBTIQ, Freddie Mercury já era seu ícone mais potente, mesmo que fosse muito difícil sua saída do armário - concretizada publicamente quando da descoberta do HIV que o levou à morte prematura aos 45 anos, vitimado por uma pneumonia. O filme trata desse tema com certa aura de puritanismo, e se dedica mais a extrair lágrimas dessa condição do que produzir reflexão sobre o desejo oculto de homossexualidade do personagem refletido em metalinguagem artística.

Apesar de aluno aplicado das lições de casa, falta ao ator americano de origem egípcia Rami Malek (poderia ser filho de Omar Sharif, à sombra das olheiras profundas...) o 'physique du role', isto é, o aspecto físico apropriado para a função que exerce em cena. Experimentem resgatar na web qualquer performance do Fred Mercury original e saberão do que estou falando.

Resta afinal o que mantém o filme de pé, sua sustentação inegável. Trata-se de uma sessão nostalgia: é como se fosse uma recopilação dos grandes e saudosos êxitos da banda. É claro que, tratando-se do Queen, grupo que nos presentou com algumas das melhores canções dos anos 1970 e 80, não se trata de nada pejorativo. Assim, "Bohemian Rapsody" é para ser visto e revisto na maior tela da maior sala com o melhor som disponíveis. Para que seja desfrutável como um épico musical, que é como se apresenta. A despeito de suas incorreções.

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