Quebrando os tabus da velhice
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de janeiro de 2009
Flávia Guerra<br> Agência Estado 
Cate Blanchett, 39 anos, três filhos, várias indicações, e premiações, ao Oscar, Globo de Ouro, ao Bafta. Duplamente nomeada ao Oscar no ano passado, por ''Elizabeth - The Golden Age'' e ''Eu não Estou lá'', e vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante em 2005 por ''O Aviador''. O que ainda falta na carreira desta australiana que, após viver em Londres por anos, onde conheceu o marido, o dramaturgo, e também australiano, Andrew Upton, decidiu voltar à sua terra natal ?
Nesta entrevista, ela responde a esta pergunta e fala sobre seu mais novo sucesso, 'O Curioso Caso de Benjamin Button', ao lado de Brad Pitt. No filme, adaptação de um conto de F. Scott Fitzgerald, ela é uma bailarina que se apaixona pelo curioso Benjamin. A história vem curiosamente a calhar em tempos em que velhice virou tabu.
Você não acha que a frase (que já foi atribuída a Chaplin) de que deveríamos nascer velhos e rejuvenescer até morrermos bebês se aplica bem a Benjamin Button?
Acho esta frase linda, mas tão triste de se dizer. Porque é tão carregada de arrependimento. E este é um filme sobre a alegria e a tristeza de se nascer não com a sabedoria, mas com o corpo de um velho homem e a mentalidade de um jovem. E quando ele vai ficando velho, vai acumulando sabedoria de quem vive uma vida plena.
Você envelhece. Ele não. Foi esta dualidade o que mais a seduziu neste papel?
Meu primeiro impulso ao aceitar este papel foi bem mais prosaico do que parece. Queria voltar a trabalhar com o David (Fincher) e com Brad (com quem dividiu a cena em ''Babel''). E aí esta história apareceu. De início, parecia tão dolorosa e, ao mesmo tempo romântica e fantástica. E pensei o quão desafiador seria interpretar um personagem que vai dos seis aos 86 anos. Minha voz foi fundida com a voz da atriz que me interpreta aos seis anos. Em geral, há duas ou três atrizes para o mesmo personagem.
Foi também desafiador trabalhar a velhice na tela? Você sente esta pressão para ser sempre jovem?
De forma alguma. Óbvio que me cuido, mas também é óbvio que estou mais velha. No fundo, ainda morremos de medo da morte. Mas é inevitável e temos que nos preparar. Somos obcecados com o que parecemos ser e não com o que pensamos. Ou com a evolução de nossas crenças. É bizarro...
Mas você pôde brincar de envelhecer neste filme. E para a fase jovem? Também precisou de efeitos especiais?
A idade é algo essencial neste filme. Por isso, houve um pouco de maquiagem digital para me fazer parecer mais jovem. E também para me fazer parecer mais velha. E pode-se fazer muito só com iluminação. Posso parecer que acabei de fazer um lifting só pela forma com que meu rosto é iluminado. E muito disso também é a energia que eu, como atriz, empreguei nas expressões. Então, me desculpe, mas não se trata só de maquiagem.
O que há de tão especial em Daisy? O que há difere e a aproxima de personagens como Elizabeth?
Acho que cada um é diferente, claro, mas eu simplesmente pensei em como achamos que tudo é possível quando somos jovens, como lutamos contra o mundo sem medo e com vontade de provar algo. Mas não é fácil lidar com sua própria mortalidade quando se é jovem. E Daisy tem de aprender a lidar com isso muito cedo e isso muda o curso de sua vida.
Tornar-se diretora da Sydney Theatre Company é uma forma de valorizar mais seu tempo e estar mais próxima de seus filhos?
Eu e meu marido decidimos voltar para Sydney porque lá é nosso lugar. Além de poder usar nosso prestígio e nossas conexões para promover ações, podemos trabalhar e projetos que são desenvolvidos mais a longo prazo. Temos um contrato de três anos como diretores artísticos da companhia e queremos desenvolver novos projetos, além de trazer novos parceiros internacionais para o teatro.
O que é mais desafiante? Estrelar em Hollywood ou administrar o teatro de sua cidade?
São coisas diversas. Retornar à minha cultura foi algo realmente importante. Sinto esta responsabilidade imensa. Acho que ter vivido no exterior nos dá uma outra perspectiva, muito mais crítica em relação à nossa própria cultura.
Apesar de desempenhar papéis inesquecíveis no cinema, o teatro ainda é muito importante para você, não?
Claro. Isso é até um chavão de se dizer, mas o palco é muito mais orgânico. A relação com o público no cinema é tão mais distante. Este ano vou viver um personagem que sempre quis fazer: Blanche du Bois, em ''Um Bonde Chamado Desejo''. E será dirigido pela Liv Ullman. Há tempos que queríamos trabalhar juntas. Foi sugestão do Andrew, meu marido. Estou feliz, pois este ainda é um texto muito atual e poderoso.
O que ainda falta você fazer, seja na Austrália ou no mundo?
Ainda quero criar meus filhos, e bem. Mas tanto no teatro ou no cinema, o que quero continuar fazendo diz muito mais respeito a projetos que surgem de conversas que vão acontecendo, diretores que te imaginam em um certo papel, encontrar uma boa história. A única personagem que não fiz ainda e que gostaria de fazer é Berenice. Mas por ora, ainda não tenho nenhum filme em vista.


