O que de melhor há em ''Xampu: Lovely Losers'' é que se pode identificar com qualquer coisa que está ali, não importa sua idade ou onde você mora. Afinal de contas, tudo gira em torno de conflitos da vida moderna, especialmente de quem vive em selvas de pedra como São Paulo. Nada de novo na seara das histórias em quadrinhos e seria aqui mais uma tentativa medíocre, não fossem os traços de Roger Cruz e a habilidade com que construiu a narrativa e a identidade visual do primeiro álbum de uma trilogia.
Tudo já está bem evidente nos logotipos, no tipo de papel, na sépia em tratamento sobre o nanquim preto-e-branco: há uma atmosfera nostálgica, um ar rock'n'roll e urbano, uma leveza sobre o ar carregado de fumaça, uma sensação de prazer permeada de lembranças cítricas. O tratamento editorial é caprichado como nos livros de Will Eisner, para manter os leitores em narrativas climáticas.
Roger se livrou das amarras colantes dos super-heróis para encontrar um estilo próprio, carregado de influência de Chris Bachalo (''Morte: O Alto Preço da Vida'') e Pasqual Ferry (da graphic novel oitentista ''Crepúsculo''). As linhas retas deram lugar a coisas subjetivas, os personagens têm vida própria em cada estilo cartunesco diferente, porém em harmonia, em unidade quando estão juntos.
A narrativa de Roger também está mais minuciosa e intuitiva em relação aos seus trabalhos mainstream, com planos diferentes de ação e mais subtextos. Tudo mais livre e fluído. Explica-se aí a razão do autor se sentir mais feliz por fazer trabalhos próprios. E, aqui, ganha mais uma vez o leitor. (C.Y.)

Serviço - ''Xampu: Lovely Losers'' tem 80 páginas em preto-e-branco no formato 20,5 x 27,5 cm e custa R$ 29,50.

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