Que ''Livro'' é esse?
Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Livro não é um disco bacana não senhor! Ok, abocanhou o Grammy para a felicidade geral da nação e bem-estar do inflado ego de Caetano Veloso. E daí? E daí, que é preciso rever, ou melhor, inverter aquele famoso ditado. Então levando-se em conta que os três últimos vencedores na categoria world music foram brasileiros, a frase agora fica assim: o que é ruim para o Brasil é bom para os Estados Unidos. Americanos gostam de discos brasileiros confusos ou frágeis. E assim sendo, os americanos babaram no monótono Nascimento (de 97, de Milton Nascimento), viram chifre em cabeça de cavalo no fast food Quanta Gente Veio Ver (de 98, de Gilberto Gil) e agora reverenciaram o enjoativo Livro, do filho de dona Canô.
Avisa lá que Livro nada mais é que um disco com um conceito sonoro desanimador. Ou seja, Caetano mais Jaques Morelenbaum, o co-mentor musical do disco, resolveram revestir as canções com a sonoridade percussiva que sobe e desce ladeiras em Salvador. Só que em volume baixíssimo, com efeito inócuo e repetitivo ao ponto de poder tocar em elevador ou em ante-salas de clínicas homeopáticas. Claro, há alguns acertos a versão funkeada de Navio Negreiro (Castro Alves) e a deliciosa mixórdia sonora de How Beautiful Cold a Being Be.
E paremos por aí. O resto, é Caetano jogando meiguices e fazendo alguns versos fajutos. Do tipo: Você é minha/ ninguém se atreva / porque nós dois somos um time campeão (Você é Minha). Ah, sim, deu-lhe na telha dar aula de História com a quilométrica (a faixa tem dois ou três meses de duração) Alexandre em que deita falação sobre Alexandre, o Grande e seu cavalo chamado Bucéfalo e seu preceptor de nome Aristóteles.
E quando o criador resolve danar sua própria criação, hein? Pois Caetano Veloso mais o colega Morelenbaum conseguiram transformar Minha Voz, Minha Vida em musiquinha ideal a ser executada, tal qual está no disco, em coretos de cidades do interior daquelas que têm televisão na praça.
Aí é que está: é mais fácil questionar o disco eleito do que os critérios de concessão do Grammy na categoria world music. Sim, porque lá fora os sons do Brasil ainda soam exóticos, diferentes, bonitos e, consequentemente, Livro se ajusta bem a esses adjetivos e anseios. O produto ainda vai com uma grife nacionalmente aclamada como Caetano Veloso.
Mas daí, por tabela, proclamar Livro como sendo um trabalho excepcional já é um pouco demais. Passemos por cima dos critérios (quais, my God, quais?) dos julgadores que concederam o Grammy a Caê: Livro não é grandes coisas e pronto. Para nós, é só mais um disco de Caetano Veloso. Já para os gringos...
Pensando bem, há males que vêm para o bem. Já imaginaram se o prêmio fosse para Prenda Minha, o disco do oba-oba, com o qual o baiano vendeu um milhão de discos graças à versão açucarada para Sozinho. Onde é que enfiaríamos nossa cara se isso tivesse acontecido, hein?





