Que falta Fellini faz!
O canal de tevê paga Eurochannel passou o mês anunciando para hoje uma homenagem especial a Federico Fellini, chamando para os Cinco anos sem Fellini. Neste Halloween, nada melhor do que um bruxo-alquimista, um visionário sacro-pagão, uma inesgotável usina de sonhos tornados imagens. Constam do apelo um documentário sobre o cineasta, não se sabe se inédito, e a exibição de Julieta dos Espíritos, de 1965. A escolha do longa justifica-se na plenitude. Giulietta degli Spiriti, em todos os sentidos, é um de seus melhores filmes, uma profunda exploração do universo mental da mulher, uma fantasia no significado mais raso da palavra, mas naquilo que escapa aos limites do que frequentemente chamamos de realidade.
Federico Fellini/ReproduçãoAuto-retrato de Federico Fellini, numa referência a Ginger e FredA inesquecível preocupação de Fellini com memória, vida, amor e morte, impressa em celulóide em algumas das mais importantes obras deste século, sempre nasceu antes sob a forma de desenhos. Quase uma fixação durante toda uma vida, os desenhos, antes de serem apenas uma coletânea de belos desenhos, dão a impressão de uma espécie de álbum de família dos filmes. A palavra é do diretor:
Federico Fellini/ReproduçãoFellini desenha a caricatura do ator Roberto BenigniNo início de cada filme passo a maior parte do tempo na escrivaninha, e não faço mais do que rabiscar desenhos de nádegas e seios. É a minha maneira de perseguir o filme, de começar a decifrá-lo através desses rabiscos. (...) Não sei bem de onde saíram os rabiscos. Com isso não quero dizer que os desconheço. Eu os fiz, são desenhos que vão jorrando aos borbotões sobre as folhas, durante a preparação de meus filmes. É uma espécie de mania, sempre fiz isso, era muito pequeno e já rabiscava com lápis, giz, pintava todas as superfícies brancas que encontrava pela frente, papéis de carta, paredes, guardanapos, toalhas de restaurante. Há quem escreva palavras, apressadamente.ReproduçãoAmarcord (1973)Eu desenho, esboço os traços de um rosto, os detalhes de um vestido, as atitudes de uma pessoa, expressões, certas características anatômicas. É minha maneira de me aproximar do filme que estou fazendo, compreender de que tipo é, começar a olhá-lo de frente. E em seguida tudo chega às mãos de meus colaboradores (...) que se servem deles como uma espécie de pauta para desenvolver seu trabalho. (Fellini - Entrevista Sobre o Cinema, de Giovanni Grazzini, Civilização Brasileira, 1983).ReproduçãoE La Nave Vá (1983)
Ano passado, durante as comemorações que Cannes preparou para os 50 anos do Festival, uma surpresa. Nas paredes dos corredores do Palais, coletânea de desenhos de Fellini ganhou uma espécie de gabinete reservado apenas para iniciados. Auto-retratos Íntimos: 1975-1993. Todos até então inéditos (há um livro disponível só com desenhos, edição luxuosa lançada na Europa no início dos anos 80), da coleção particular de Daniela Barbiani, sobrinha e assistente de direção do cineasta. O traço, inconfundível. E olhando bem de perto, com atenção e carinho, é de fato como ele dizia. Por trás de cada personagem, uma história, uma intriga, uma pequena mise-en-scSne, uma vinheta, uma misteriosa simbiose de realidade e fantasia, uma trama que transformava o espectador em cúmplice e confidente.Federico Fellini/ReproduçãoFederico Fellini quando jovem, num desenho dele mesmo
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2





