Paulo Polzonoff Jr.
De Curitiba
Especial para a Folha2
Ler ‘‘O Chão que Ela Pisa’’ (Companhia das Letras, 575 págs, R$ 35,00) é contemplar um escritor que atingiu o ápice de sua obra e agora só faz redundar. É constatar o inegável talento de Rushdie sendo ofuscado pela vida do cidadão que foi condenado pelos aiatolás do Irã à morte, e que disso, como um abutre autofágico, sobrevive.
A fatwa tornou Rushdie um escritor famoso e imediatamente catapultou as
vendas de seu até então obscuro ‘‘Os Versos Satânicos’’, mas não se pode dizer que Rushdie era um mau escritor alçado à fama pelo infortúnio da morte iminente. Prova disso é seu excelente Midnight’s Children e Shame (não editados no Brasil), livros anteriores à macabra fama de Rushdie e de grande valor literário. Sobre ‘‘Os Versos Satânicos’’ já se disse que seria um livro restrito aos guetos literários não fosse a extraordinária publicidade em torno do nome de Salman Rushdie e sua cabeça a prêmio. ‘‘O Último Suspiro do Mouro’’ é com certeza seu melhor livro, um verdadeiro libelo em prol da liberdade e uma pequena obra-prima. Foi neste livro que Rushdie atingiu o apogeu de seu modo peculiar de ver o mundo, com um olhar sempre na fronteira do racional e irracional, do fantástico e do real, do Oriente e do Ocidente, da Índia multicolorida e da fria e cinza Inglaterra. Foi também com ‘‘O Último Suspiro do Mouro’’ que Rushdie descortinou seu drama de artista perseguido, cuja única janela para o mundo era a imaginação. A revogação da fatwa em 1998 trouxe expectativa entre os leitores de Rushdie. O que o escritor que ficou famoso por ser uma espécie de mártir vivo (?) da liberdade de expressão teria a dizer para o mundo agora que estava livre?
Nada, seria a resposta. Pelo menos nada de novo. Em ‘‘O Chão que Ela Pisa’’ Rushdie só faz revisitar os mesmos temas de seus livros anteriores. Pior: se em ‘‘O Último Suspiro do Mouro’’ a saga da família Zogoiby dava ao leitor a sensação da mais genuína prosa oriental, que nos remete invariavelmente a Sherazade, neste ‘‘O Chão...’’ Rushdie apenas maquia o mito grego de Orfeu e Eurídice, transpondo-o para o mundo medíocre da música pop. Aliás, adaptar o livro à mediocridade da estética pop é o que Rushdie faz com inegável competência. O livro parece ter sido escrito à maneira única de seus personagens principais, Ormus Cama e Vina Apsara, se expressarem, como cantores de rock que são: o videoclipe. O livro é um verdadeiro rolo compressor de acontecimentos que, pela velocidade em que acontecem, só são verossímeis mesmo aos fãs de superestrelas. Esta inverossimilhança, porém, não atinge o nível do fantástico a la Gabriel García Márquez, simplesmente porque se pretende a real. Ou a uma justificativa à suposta genialidade de Ormus Cama e suas ‘‘canções terremotos’’. ‘‘O Chão que Ela Pisa’’ parece ser um livro escrito para leitores juvenis, acostumados à linguagem da MTV, incapazes de ultrapassarem uma página sem que aconteça algo de imediatamente apelativo. Tentando agarrar o leitor à força para dentro de uma história já contada (e muitas vezes vulgarizada, diga-se de passagem), Rushdie condensa nas primeiras páginas do livro sexo, suicídio, assassinato, amor à primeira vista, escândalos políticos, mitologia rasteira, terremotos, revoluções, serial killers, zoroatrismo, etc, etc. No meio de tantos acontecimentos, a reflexão é relevada a segundo plano. Nas mãos de Rai, o narrador, então, as reflexões se confundem na própria inconsistência do personagem.
Rai, Ormus e Vina formam um triângulo amoroso com todos os ingredientes para satisfazer às mais ávidas revistas de fofoca e tablóides. Rai é um fotógrafo bem-sucedido e o narrador da história que ele diz estar contando para resgatar Vina do Inferno, após a morte dela num terremoto no México. Vina, por sua vez,
é uma mistura de Madonna, Janis Joplin e (perdoem-me a heresia) Billie Holliday. Ela vive o lugar-comum da fama promíscua, drogada, engajada e sobretudo falsa. Ormus, compositor e amor jamais consumado de Vina, é uma mistura de Dylan, Lennon e Elvis, ao qual Rai atribui poderes sobrenaturais.
Rai e Ormus são indianos com uma alma americanófila. Vina é uma americana com sangue indiano. Rai e Ormus são dois pólos distintos de uma mesma cultura: enquanto o fotógrafo narrador se diz céptico, Ormus é a encarnação de todas as superstições possíveis e imagináveis. Vina seria o ponto de confluência a unir pontos antagônicos numa ‘‘pax americana’’. É nessa relação conflituosa de culturas distintas que vão se misturando aos poucos que o mito de Orfeu/Ormus/Rai e Eurídice/Vina se desenvolve. Rai, porém, ao narrar a história de sua amada e sua descida aos Infernos do mundo pop, esbarra ao assumir-se como céptico e comportar-se como um crédulo. Como um homem pode crer e fazer crer que Ormus seja capaz de viver na fronteira entre mundos conflitantes ‘‘como placas tectônicas’’, fazendo dele um ser mediúnico ou interdimensional, capaz de absorver duas realidades parecidas mas opostas?
Enfim, como um homem céptico e racionalista pode recorrer a mitos gregos, indianos e zoroatrismo para contar sua história? Simplesmente não pode. Eis aí a inconsistência da narrativa e a fragilidade de Rai como narrador, mesmo que de uma história banal.
Vina é, aparentemente, o maior trunfo do livro. Assim como Aurora Zogoiby de ‘‘O Último Suspiro do Mouro’’, é um personagem forte que assume proporções arquetípicas. Vina é, por assim dizer, um ‘‘neoarquétipo’’ que concentra em si todas as características das estrelas do rock e pop. Não é por acaso que Rai usa de sucessivas hipérboles para descrevê-la, ou então a compare a nada mais nada menos do que Atena, Helena de Tróia, Psique, Medusa, Cinderela e até Dionísio. Vina, ao mesmo tempo, dá o tom de atualidade do livro, carregando em si toda a caracterização dos loucos anos 60, insanos 70, decadentes 80 e mortais 90.
Rushdie, a despeito de ter escrito um livro superficial e cheio de personagens-clichês, continua impecável no que tange à linguagem. Ler Rushdie é como ouvir várias músicas ao mesmo tempo e ainda assim absorver desta dodecafonia involuntária estranha beleza e harmonia. O texto de Rushdie flui com perfeição entre as diferentes linguagens. E ele faz questão de usar a maior gama de narrativas possíveis nas 575 páginas do livro.
‘‘O Chão que Ela Pisa’’, como qualquer produto da indústria pop, já está rendendo subprodutos. Salman Rushdie já fez uma leitura dramatizada para uma multidão em Nova York e até escreveu uma música para o grupo irlandês U2.
Resta saber se a música, tal como o livro, vai ser um sucesso de vendas.
Porque, em se tratando de música/literatura pop, vendas é a única coisa que interessa. Criatividade, inovações estéticas, profundidade, isto é coisa de um outro mundo, do qual, infelizmente, ‘‘O Chão que Ela Pisa’’ não faz parte.Salman Rushdie, autor do polêmico ‘‘Os Versos Satânicos’’, escreve agora um livro para ser lido vendo a MTV
ReproduçãoEm ‘‘O Chão que Ela Pisa’’, Salman Rushdie não faz mais que revisitar os mesmos temas de seus livros anteriores

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