Que barulho é esse?
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sexta-feira, 11 de março de 2011
Felipe Branco Cruz <br> Agência Estado 
São Paulo - Uma série de tubos retorcidos de PVC reverberam um som produzido por uma sola de chinelo. Uma enceradeira e uma série de buzinas produzem barulhos que, quando combinados, se transformam em música. Brinquedos de crianças, como o pogobol, o Genius e uma galinha de plástico, também servem a esse propósito. Esse tipo de invenção pode ser visto no trabalho de alguns artistas brasileiros, como Tom Zé e as bandas Leela, Spyzer, Uakti e Pato Fu. A partir de objetos inusitados, eles fazem surgir sons que depois são incorporados em suas composições.
O objetivo, segundo os músicos, é agregar uma sonoridade diferente aos instrumentos tradicionais, como guitarra, bateria, baixo e violão. A ideia pode soar nova, mas vem de longe. Um dos precursores é o próprio Tom Zé, 74 anos. Na década de 70, ele chocou o público e a crítica ao subir no palco usando buzinas, uma enceradeira e até um esmeril.
''Quando uma pessoa nasce com uma voz linda ou é um grande instrumentista, ele não precisa se preocupar com nada. Mas quando o cara é ruim, como eu sou, tem de inventar esses instrumentos'', diz Tom Zé. ''Só não pode errar no instrumento, se não fica ridículo''. Nessa onda, ele já inventou o Buzinório, o Enceroscópio (com enceradeiras) e o Hertzé (uma espécie de antepassado dos samplers dos DJs). E as invencionices de Tom Zé rompem fronteiras. No próximo show que o artista fará no exterior, no dia 19 de julho, no tradicional Lincoln Center, em Nova York, ele estará acompanhado dos seus insólitos instrumentos. Quem quiser vê-lo em ação, pode assistir ao DVD do show Pirulito da Ciência, lançado recentemente em todo o País.
Spyzer e Pato Fu, por outro lado, são bandas que, além de inventarem seus próprios instrumentos, também pesquisaram por outros mais inusitados. No caso dos paulistas do Spyzer, a busca por novos sons é no sentido de reproduzir no palco tudo aquilo que poderia ser feito por meio de sintetizadores. ''Não somos DJs. Somos uma banda. No palco, tocamos todos os instrumentos para fazer música eletrônica'', diz o guitarrista Jay, 29. Para isso, eles utilizam, por exemplo o Grande Pan ou Chinelofone, um instrumento aerofônico, que amplifica o som produzido por batidas feitas por chinelos nas bocas de tubos de PVC. ''É bem peculiar. Foi preciso experimentar bastante até chegarmos às inclinações perfeitas dos tubos para produzir os sons certos'', diz Jay. ''As curvas dos canos de PVC lembram os grandes órgãos das igrejas''.
John Ulhoa, 45, guitarrista do Pato Fu, é outro entusiasta das novidades, interesse que sempre foi um dos motores criativos da banda. Em 1996, por exemplo, durante o Hollywood Rock, John mostrou ao público um dispositivo eletrônico, batizado de pad man, criado por ele mesmo. Tratava-se de uma luva com captadores de som, acionados quando ele batia no próprio corpo. ''Até hoje, o pessoal pede para eu tocar o pad man. O problema é que tem de bater muito forte no corpo. Dói pra caramba'', diz John.
A nova da banda é usar instrumentos infantis (sax, teclado, bateria, tudo de brinquedo) ou qualquer outro brinquedo que produza som. E aí vale de tudo, até uma galinha de plástico. ''A gente toca pogobol, por exemplo. É o brinquedo com um captador de som na bola e que faz barulho quando pulamos em cima'', conta John. ''Mas há também o som de um fantasminha ou do brinquedo Genius'', destaca.
Instrumentos como esses ajudam a potencializar a criatividade musical dos brasileiros, representada em Minas Gerais pelo grupo Uakti, em atividade desde 1978 e especializado em tocar e criar os instrumentos que usa. O grupo faz estudos musicais em diversas áreas e seus instrumentos são acústicos e classificados em categorias como aerofones, eletromecânicos, idiofones, cordofones. ''A construção de instrumentos acústicos parou no século 19'', diz o instrumentista Arthur Andrés, 52. ''Depois da Segunda Guerra Mundial, foram criados uma série de materiais, como ligas metálicas e plásticos, que possibilitam criar novos instrumentos''.
Entre os artistas que já tocaram com o Uakti, estão Milton Nascimento e Zélia Duncan. ''Na Renascença, muita gente criava os próprios instrumentos, de sopro ou corda. Cada feudo tinha o seu'', diz. ''Fazemos pesquisa musical. Para isso, utilizamos materiais do cotidiano, como cabaças, potes com água, cabos de embreagens. Há um mundo de possibilidade para criarmos''. O que importa é fazer música. Tralhas nunca vão faltar.


