Era uma noite fria e nublada. No horizonte, relâmpagos cortavam os céus escuros, prenunciando a tempestade que chegava. Quando os ponteiros dos relógios indicaram 20h, um intenso brilho começou a surgir. Surpreendendo os desavisados, nove mil lâmpadas coloridas se acenderam, iluminando becos escuros e vielas de construções antigas.
A cena, com clima europeu, aconteceu no último dia 27 na cidade do Rio de Janeiro. Debaixo de uma fina garoa, luzes mutantes surgiam e desapareciam, multicoloridas, apagando e acendendo uma estranha dança, e hipnotizando a multidão que se aglomerava lentamente, apesar da forte chuva que começava a cair. Atraindo olhares atentos de pedestres, artistas, mendigos e travestis do bairro da Glória, ao redor da bela - e esquecida - estrutura da praça Paris, uma manifestação artística estava acontecendo.
''Eu gosto de fazer minha arte assim: na cidade, em espaços abertos, no meio do mar, em castelos. Eu gosto de trabalhar no ar livre'', explica o artista italiano Giancarlo Neri, idealizador do projeto ''Máximo Silêncio'', que já foi realizado em espaços públicos de Roma, Madri e Dubai e agora acende as noites da capital carioca. ''O que eu fiz é uma verdadeira invasão de um espaço urbano. Mas eu só faço isso porque sinto a responsabilidade de me comunicar com todos, isso que é o importante'', afirma o artista.
Unindo arte e tecnologia, Neri é visto como um dos principais expoentes da arte contemporânea, e é especialista em montar estruturas luminosas inusitadas, geralmente no coração das grandes metrópoles. ''Tanto as crianças quanto os adultos gostam de ver esse projeto. Para mim, não tem sentido nenhum fazer uma instalação pública com uma linguagem estranha, que ninguém compreende. A responsabilidade é minha. Eu tenho que me preocupar com o público. Eu preciso me fazer ser compreendido'', explica o artista, convidado pela Oi Futuro para construir a estrutura das lâmpadas no Brasil, em comemoração ao ano Brasil-Itália (2011-2012).
Para explicar a necessidade de atingir o público 'comum' com suas obras no meio das cidades, Neri conta uma metáfora que ele chama de ''Síndrome do Dentista''. ''Em um congresso de dentistas, eles não falam de sorrisos. Eles falam de fio dental, do formato dos dentes. Os artistas também são assim; entre eles, só comentam sobre quem vendeu qual trabalho, quem é o próximo curador do Museu. Apenas coisas pouco interessantes'', admite o italiano, assumindo que o debate com o público é muito mais rico do que com críticos de arte. ''O cenário urbano é o meu cenário. O silêncio, tão importante no passado, já não existe na modernidade. Minha obra discute isso'', reflete Neri, observando os milhares de pontos luminosos.

Buraco de agulha
Também discutindo a convergência sobre a arte do passado e do futuro, a exposição ''Sebastião Barbosa, fotógrafo'', inaugurada no Rio de Janeiro no último sábado, é uma compilação de dez anos de trabalho fotográfico produzido através da técnica artesanal do pin hole - que significa literalmente, 'buraco de agulha' - que adapta latas velhas para servirem como câmera. ''Sempre se utilizam desse termo de forma meio desrespeitosa. Falam que é fora de foco, deformado. Nesta exposição, demonstro que é possível incluir uma sofisticação técnica, mesmo em um processo empírico, simples'', afirma Sebastião, que realizou experimentações no Rio e em Paris, com fotos feitas em 360º de locais emblemáticos das cidades, coloridas e em preto-e-branco.
''Não sou contra a tecnologia, mas a coisa que me agride é o seguinte: ver o sujeito chupando um picolé e fazendo uma fotografia ao mesmo tempo. É um aviltamento, um descaso com uma coisa que eu amo'', aponta o fotógrafo, apontando para uma verdadeira 'montanha' de mais de mil latas/câmeras, recolhidas de moradores de rua e utilizadas para fazer o trabalho. ''Hoje é muito fácil tirar fotografias. Mas fazer fotografia, de verdade, sempre vai ser difícil'', completa.

Serviço:
- Máximo Silêncio em Paris - Rio de Janeiro. Praça Paris (bairro da Glória). Até terça (7), das 19h até a meia-noite
- Sebastião Barbosa, fotógrafo - Rio de Janeiro. Oi Futuro Ipanema. Galeria do 2º Piso (Rua Visconde de Pirajá, 54). Até dia 25 de março. Mais informações pelo site www.oifuturo.org.br

(* O repórter viajou a convite da Oi Futuro)

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