O homem A, caminhando para casa, vira a esquina B e encontra o amigo C. Após uma breve conversa, em vez de seguir pela rua D como habitual, escolhe caminhar pela rua E. Ao atravessar a rua, num breve descuido, é atropelado pelo carro F conduzido pelo jovem I. Levado ao hospital J, conhece a enfermeira L com a qual se casa e tem dois filhos, M e N.

Paul Auster: narrativa do novo livro desenvolve-se em quatro ramificações que mudam a trajetória dos personagens
Paul Auster: narrativa do novo livro desenvolve-se em quatro ramificações que mudam a trajetória dos personagens | Foto: Divulgação



E se por acaso o homem A, caminhando para casa, virasse a esquina O e não encontra o amigo C, mas o tio P? E se não escolhesse seguir pela rua E, mas pela Q? Assim não seria atropelado, não seria levado ao hospital, não teria conhecido a enfermeira L e não teria filhos.

Em seu novo romance, "4 3 2 1", o escritor norte-americano Paul Auster leva às últimas consequências o inesperado e a riqueza da possibilidade de "e se por acaso...". A partir de amplo leque de especulações, o autor apresenta uma série de coisas que poderiam ter acontecido, mas não aconteceram. E, ao mesmo tempo, coisas que não poderiam ter acontecido, mas aconteceram.

"4 3 2 1" é claramente livro mais ambicioso criado por Paul Auster. Um catatau de quase mil páginas que levou sete anos para ser escrito. A grande surpresa está na estrutura narrativa desenvolvida que se divide em quatro ramificações onde escolhas, circunstâncias e acasos, determinam a trajetória do personagem principal.

Lançado pela editora Companhia das Letras, a obra acompanha a trajetória de Archie Ferguson, de seu nascimento em 1947 (mesmo anos de nascimento de Paul Auster) até o final da década de 1970. Mas a história não segue os padrões de uma única sequência cronológica. O narrador apresenta quatro sequências, quatro variantes para a história do protagonista Ferguson.

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Em vários momentos da narrativa o autor insere um "e se por acaso" que interfere diretamente no personagem e em sua trajetória. Se, em vez de pegar a rua R, ele virasse a esquina S e seguisse pela avenida T. E na avenida T encontrasse o senhor U que lhe oferece um emprego na cidade V.

Em cada nova circunstância, novas relações surgem e determinam novos caminhos para a vida do protagonista. A história de Ferguson assume a forma de quatro caminhos paralelos.
Quatro caminhos paralelos que Ferguson poderia ter tomado se tivesse optado por determinadas decisões. O autor faz questão de não deixar nenhuma indicação para um suposto caminho verdadeiro, pois os quatro poderiam ser verdadeiros.

Um dos principais nomes da literatura norte-americana contemporânea, Paul Auster investe na eloquência em "4 3 2 1". Algo que está bem distante das narrativas de seus outros 16 livros publicados no Brasil como "A Invenção da Solidão", "Desvios no Blooklyn", "O Livro das Ilusões" e "Noite do Oráculo".

Imagem ilustrativa da imagem Quatro destinos de uma grande eloquência
| Foto: Divulgação



Serviço:
"4 3 2 1"
Autor - Paul Auster
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Rubens Figueiredo
Páginas - 816
Quanto - R$ 89,90

Fragmento
Seu avô chamou aquilo de um interregno curioso, referindo-se a um tempo entre dois outros tempos, um tempo fora do tempo, quando todas as regras de como a gente devia viver foram jogadas pela janela, e muito embora o menino órfão entendesse que aquilo não podia durar para sempre, ele gostaria que durasse mais do que os dois meses que lhe foram concedidos, talvez mais dois meses além dos dois primeiros. Foi bom viver naquele tempo sem escola, aquela curiosa lacuna entre uma vida e a vida seguinte, em que sua mãe ficava com ele desde o instante em que abria os olhos, de manhã, até o instante em que os fechava, à noite, pois era a única pessoa que lhe parecia real agora, a única pessoa real que tinha sobrado no mundo, e como tinha sido bom compartilhar aqueles dias, aqueles dois meses estranhos, comendo fora, em restaurantes, visitando apartamentos vazios e indo ao cinema quase toda tarde, tantos filmes vistos pelos dois juntos, no escuro do balcão, onde podiam chorar toda vez que quisessem, sem ter de dar explicações para si mesmos nem para ninguém.

(Fragmento de '4 3 2 1', de Paul Auster)

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