Antes da estréia americana no segundo semestre do ano passado, ‘‘A Corrente do Bem’’, com lançamento brasileiro a partir de hoje , andou seriamente cogitado para ganhar a linha de frente na corrida ao Oscar que será entregue domingo. Mas então as pessoas começaram a assistir ao filme. E embora alguma coisa positiva possa ser dita sobre ele, não há como negar que a última terça parte põe a perder as boas intenções do restante. Assim, fica a advertência: se você decidir ver filme e sair do cinema em indignada ebulição, não foi por falta de aviso.
Existe um linha muito tênue entre o drama genuinamente emocional e aquele grosseiramente manipulador, feito para ensopar lenços. ‘‘A Corrente do Bem’’, além de cruzar esta linha, acaba tropeçando nela – e caindo ruidosamente. Um roteiro com antolhos acaba embaçando uma idéia simpática e original através de um argumento sentimentalóide.
Adaptado de novela de Catherine Ryan Hyde, ‘‘Pay It Foward’’ é um drama otimista na vertente de ‘‘Grand Canyon’’, de Lawrence Kasdan, um filme que admite a vulnerabilidade de um mundo repleto de acontecimentos e pessoas nada recomendáveis, danosos mesmo. E que admite também a possibilidade de reverter esta situação, isto é, mudar tudo para melhor. Neste enunciado surge a história de Mr. Simonet (Kevin Spacey), um desfigurado e vulnerável professor com ecos do personagem de Mel Gibson em ‘‘O Homem Sem Rosto’’. Ele desafia sua turma de jovens alunos a criar soluções que poderiam ‘‘mudar o mundo’’.
Na nova turma, o diligente e afável estudante Trevor McKinney (Haley Joel Osment) leva a sério o desafio e apresenta à turma sua idéia de ‘‘pay it forward’’. Segundo ele, uma pessoa ajudaria outras três em situações que elas não poderiam ajudar a si próprias. Mas com uma condição: cada um dos beneficiados pela ajuda faria o mesmo com outras três, e assim indefinidamente. Os três alvos iniciais de Trevor são um ‘‘junkie’’ sem-teto (Jim Caviezel, o soldado-narrador de ‘‘Além da Linha Vermelha’’), um colega covarde com dificuldades para defender-se de agressões, e sua própria mãe Arlene (Helen Hunt), que precisa de um novo relacionamento afetivo com alguém em nada semelhante ao pai alcoólatra e ausente (Jon Bon Jovi). Quem sabe o próprio professor, Mr. Simonet... Ocorre que nenhum dos projetos pessoais de Trevor é bem-sucedido, mas o público sabe que seu esquema vingou país afora – isso graças a uma intrometida e desnecessária projeção no tempo, envolvendo um repórter que busca as origens do generoso fenômeno.
Não há como evitar comparações com ‘‘Beleza Americana’’– e não apenas porque Kevin Spacey está nos dois filmes e a trilha de Thomas Newton também.
Os dois trabalham com o mal-estar da sociedade americana, a náusea suburbana. A diferença está em que ‘‘American Beauty’’ vai revelando esta aflicão aos poucos, permitindo que seus personagens encontrem alivio e conforto de maneira natural e orgânica. Já em ‘‘A corrente do Bem’’, a diretora Mimi Leder dirige com a dramática sutileza de um encanador esvaziando uma fossa séptica. A propósito, prestem bem atenção em detalhes, quando por exemplo o garoto Trevor nos diz que ‘‘the world is shit’’ – ou em vernáculo corrente, o mundo é uma merda. Talvez seja por isso que quando se revê e se repensa ‘‘Beleza Americana’’, mais e mais o filme penetra sob a pele.
O que mantém de pé ‘‘A Corrente do Bem’’ é o trio central do elenco. Haley Joel Osment é assombroso – e agora já distante das tais pessoas mortas, provando que ‘‘O Sexto Sentido’’ não foi caso fortuito. Como Trevor, ele administra o personagem ao mesmo tempo como o garoto que apaixonadamente tem ‘‘o’’ plano para mudar mesmo o mundo e como garoto que faz travessuras como qualquer outro de sua idade.
A propósito, o pai dele, Eugene Osment, está numa ponta como o guarda que informa a direção. Helen Hunt consegue ir além das versões alcoólatras de Meg Ryan em ‘‘Quando um Homem Ama uma Mulher’’ ou da recente Sandra Bullock em ‘‘28 Dias’’. Helen, atualmente figura fácil nas telas da cidade – ‘‘Náufrago’’ e ‘‘Do que as Mulheres Gostam’’ –, compõe uma bela transição entre a mulher embrutecida pelo vício e pela desesperança, e a mãe remotivada. Spacey, mesmo aprisionado e meio desajeitado num personagem-clichê, supera os entraves e acaba oferecendo genuíno calor humano na pela do problemático professor.
E de volta ao lamentável final, que envolve risíveis reportagens de tevê relatando incidentes no ‘‘Pay It Forwards’’, além de uma repentina, melodramática reviravolta no argumento. A furiosa investida histriônica aos canais lacrimais compromete qualquer boa vontade que se possa ter com o restante do filme.

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