QUASE UM BALÉ - Movimentos para chegar à vitória
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de setembro de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Eles não se conheciam, mas têm histórias de vida semelhantes. Ambos superaram dificuldades nos caminhos que escolheram, mas conquistaram reconhecimento ímpar nas suas respectivas carreiras. Agora, a ginasta Daiane dos Santos e o bailarino Wanderlei Lopes se encontram pela primeira vez. Lopes é um dos responsáveis pela coreografia que vai unir a próxima série acrobática de Daiane, com previsão de ser apresentada mundialmente na Alemanha, no final de outubro. A coreografia está sendo criada sobre a música ''País Tropical'', de Jorge Benjor, com 1 minuto e 28 segundos de duração.
Os movimentos são responsáveis por dar unidade à série e são criados especialmente para quem vai executá-los. No caso de Daiane, Wanderlei está tendo cuidado especial para que a coreografia descanse a ginasta entre os ousados saltos a que ela está acostumada, ao mesmo tempo que não force o joelho direito da atleta, que já a incomodou em trabalhos anteriores. ''É uma responsabilidade grande, eu tenho que pensar em como ela vai se movimentar para não se cansar ao mesmo tempo que existe a preocupação estética'', revela Lopes em entrevista exclusiva à Folha 2.
Primeiro-bailarino do Balé Teatro Guaíra, Lopes trabalha a coreografia em parceria com o ex-ginasta Roni Ferreira. O trabalho está em processo de criação. Já que faz pouco mais de um mês que Lopes recebeu o convite. ''Eu achei maravilhoso, mas confesso que no começo fiquei apreensivo também. É uma experiência nova'', conta. Ele já havia trabalhado, na década de 80, na direção artística de apresentações de patinação, que foram apresentadas mundialmente também, mas nada parecido com os saltos executados por Daiane.
''Na coreografia, a minha preocupação principal é com ela. Eu espero que ela se sinta bem executando'', diz, desmanchando-se em elogios para a ''pequena notável''. ''Ela tem um brilho especial. É uma guerreira'', resume. Mas Wanderlei Lopes também tem no sangue e na trajetória características de um guerreiro. Aos três anos ele foi viver em um orfanato. Passou por três instituições até chegar na Casa do Pequeno Jornaleiro, onde passou a morar, trabalhar vendendo jornais de madrugada e a cumprir carga horária em outro emprego para conseguir dinheiro para estudar e se manter.
Na adolescência, além de estudar e trabalhar, o curitibano também jogava futebol (chegou até a integrar a escola infantil do Coritiba). Aos 16 anos, enquanto esperava que as dezenas de litros de leite fervessem na cozinha da Casa do Pequeno Jornaleiro (ele era responsável por essa função), estava assistindo televisão e viu uma apresentação do bailarino russo Mikhail Baryshnikov. ''Foi o meu primeiro contato com o balé e fiquei apaixonado pelos movimentos'', lembra. Na mesma semana procurou o Balé Guaíra. Isso foi no início da década de 80, mas a escola do balé não aceitava rapazes.
Quando o balé passou a ser dirigido pelo coreógrafo Carlos Trincheira, a situação para os rapazes aspirantes a bailarinos começou a mudar. As vagas para os meninos abriram e Wanderlei ingressou como bolsista, fazendo uma opção que mudaria a sua trajetória. ''Eu jogava bem o futebol. Não sei se era um promessa, mas o balé tomou conta da minha vida. Acho que não poderia ser diferente. Depois da dança, todas as outras coisas ficaram sem importância'', revela.
Pouco tempo depois, o jovem já estava sendo chamado para participar, também como bolsista, do quadro de bailarinos de uma companhia portuguesa. Em Portugal, ele ficou menos de um ano, até voltar para o Brasil para resolver questões pessoais. Desde então, ou melhor, desde 1984, ele passou a integrar o quadro de bailarinos contratados do Balé Teatro Guaíra, que o readmitiu quando ele retornou a Curitiba. O bailarino perdeu a conta de quantas coreografias dançou com o Balé Guaíra, mas foi na instituição que ele fez a sua história. A partir dela, e dos contatos que o cargo lhe proporcionou, já se apresentou em 27 países. Foi no balé que ele conheceu também, a mulher, Eleonora Greca, com quem tem uma filha, Isadora.
''Eu abracei a dança como profissão porque é isso que me faz feliz. A dança me proporcionou algo que eu não abro mão: o contato com todos os tipos de arte'', diz o bailarino. Para ele, a parceria com a mundialmente consagrada Daiane dos Santos também é um reconhecimento do trabalho. ''Mas existem coisas engraçadas acontecendo também, desde que as pessoas ficaram sabendo que eu estou fazendo a coreografia da ginasta, não paro de receber e-mails e telefonemas'', diverte-se.
Para Daiane dos Santos, que teve apenas dois encontros com o bailarino até a edição dessa matéria, a expectativa é uma só: ''eu espero que fique melhor que o ''Brasileirinho'', mas é uma música difícil com muita percussão. Espero que dê tempo para apresentar até outubro'', diz. O arranjo da música, mais acelerado que o original, foi produzido por Mizael Júnior.


