A prostituição na teledramaturgia está mais recatada. Enquanto há tempos as tramas - principalmente do horário nobre - exploravam as personagens mais lascivas em cenas ''calientes'', atualmente os papéis mais atirados, que exercem a profissão tida como a ''mais antiga do mundo'', têm se confundido com as demais mulheres ''de família'' das novelas. Mas mostram também que optaram por essa profissão, se opondo à vitimização das antigas meretrizes dos folhetins.
Basta observar o núcleo do prostíbulo da cafetina Cilene, vivida por Elizângela em ''A Favorita''. As quatro belas moçoilas que desfilam de shortinho e muitas curvas pelo cenário da casa de massagem, mal demonstram no que trabalham de fato. No máximo, insinuam sutilmente que vão fazer algum programa com um cliente. Afinal, a censura da classificação etária também inibiu a libido criativa dos autores. ''A Céu (Deborah Secco), por exemplo, é a pobre orgulhosa. Era a prostituta que não deixava os homens tocarem nela'', exemplifica João Emanuel Carneiro, autor da trama das oito da Globo.
Outra característica das prostitutas da atualidade é a quase ausência de romantismo em seus personagens. Enquanto elas despertavam compaixão por exercer a profissão muitas vezes por necessidade, hoje em dia os autores exploram a profissão desses papéis como mais uma opção de trabalho. Andressa, interpretada por Mariana Hein em ''Chamas da Vida'', é o perfil da ''nova prostituta'' da teledramaturgia. ''Ela precisa do dinheiro, mas faz por prazer. Não se sente culpada por se prostituir. Também não lembro de ter visto nenhuma prostituta como a Andressa, que assume esse trabalho sem nenhum sofrimento'', avalia Cristianne Fridman, autora da novela da Record.
Esse perfil das prostitutas nas novelas começou a mudar em ''Laços de Família'', de Manoel Carlos, em 2000. A personagem Capitu, de Giovanna Antonelli, mostrou uma nova faceta do ofício através da garota de programa que vivia no Leblon - bairro de classe média alta do Rio de Janeiro - com os pais. Sem trejeitos ou figurino que a identificassem como uma profissional do sexo, Capitu facilmente passaria despercebida como qualquer menina da Zona Sul carioca. ''Ela poderia ser sua vizinha e ninguém saberia sua profissão. Isso despertou muita curiosidade'', lembra Giovanna. ''Minha Capitu foi uma das prostitutas inesquecíveis da dramaturgia, assim como as do Dias Gomes e do Aguinaldo Silva'', orgulha-se Maneco.
Jorge Amado também inspirou diversos autores a adaptarem as histórias que escreveu, sempre recheadas de quengas românticas. A primeira delas foi Gabriela, na trama homônima exibida em 1975 e adaptada por Walter George Durst. Na história, a profissão era retratada com mais realismo o célebre cabaré Bataclan, com muitas prostitutas mais velhas ou acima do peso. ''Foi inesquecível viver uma mulher que passasse tanta verdade. Virei um ícone com a Gabriela'', comemora Sônia Braga.
Também adaptada de Jorge Amado, ''Tieta'' se passava na fictícia cidade Santana do Agreste, onde Aguinaldo Silva ambientou uma das prostitutas mais românticas da teledramaturgia, em 1989. Era a Eleonora, vivida por Lídia Brondi, que sonhava em se casar. Essa personagem era o oposto do que as novelas têm retratado na atualidade em prostitutas contemporâneas, como a Bebel de ''Paraíso Tropical''. Apesar de ter se envolvido com Olavo, o papel de Camila Pitanga era para ser uma vilã desde o início. ''A Bebel era uma safada e não tinha romantismo. Minha intenção era abordar o turismo sexual'', ressalta Gilberto Braga. ''Embora nossos autores façam pesquisas para seus personagens, retratar uma prostituta com verdade é muito difícil. No fim de uma novela, ela deixa de se prostituir ou se dá muito mal. Existe sempre um preconceito mascarado'', alerta a garota de programa e escritora Paula Lee.

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