Quase nada a acrescentar
Se gradações dizem alguma coisa, Zélia Duncan padece de um destino cruel. Seu quinto disco, Sortimento, não a eleva um milímetro da posição de segundo escalão de cantoras nacionais.
Há, claro, algumas surpresas em sua nova fase na gravadora Universal. Mas nada que se revele um milagre estético. O viés folk, que sempre a perseguiu, foi amenizado e abafado em diversas frentes musicais. Ela incursiona até pelo samba em Na Hora da Sede, de Luiz Américo e Braguinha, com apoio rítmico do lendário Trio Mocotó do músicos Nereu Gargalo (pandeiro), João Parahyba (timba) e Fritz Escovão (cuíca).
A influência dos Paralamas do Sucesso, contudo, paira sobre a maioria das canções. Não o Paralamas do ska dos primeiros discos, mas o feixe de canções líricas, indignadas e híbridas que sempre habitou o repertório da banda. Ouçam, por exemplo, Eu Me Acerto, Me Revelar (incluída na trilha da novela Um Anjo Caiu do Céu) ou Desconforto (com letra de Rita Lee e participações especiais do guitarrista Beto Lee, de DJ Marco e dos rappers Johnny MC e Rappin Hood).
Soa óbvia, assim, a inclusão da faixa-bônus Partir, Andar, que Herbert Vianna gravou em seu álbum-solo O Som do Sim com participação de Zélia nos vocais. A tentativa de escapar do estilo que a consagrou levou-a também a variar seus parceiros, rompendo o ciclo de trabalho regular com o músico e produtor Christiaan Oyens ao lado do qual gravou os álbuns Zélia Duncan (94), Intimidade (96) e Acesso (98).
Aqui, Oyens assina apenas o hit Me Revelar, embora seja responsável pela produção de outras quatro faixas. Entre os compositores, a cantora convocou Itamar Assumpção emprestando dele Por que que Eu Não Pensei Nisso Antes, que inclui um scratch executado pelo DJ Marco sampleando um trechinho da clássica Benedito João dos Santos Silva Beleléu, do primeiro disco de Itamar. O curioso é que o timbre riscado ficou semelhante à voz de Zélia.
Nando Reis, John (do Pato Fu) e Arnaldo Antunes em dupla com Pepeu Gomes são outros nomes ilustres que aparecem como compositores ao longo do disco. Entre os novatos, Zélia recrutou Rodrigo Maranhão (da banda carioca Bangalafumenga) e Fred Martins (já gravado por Ney Matogrosso). Os nomes se multiplicam numa lista interminável, assim como a sucessão de canções aguadas.
Zélia apostou na diversidade musical. Boa intenção, pífio resultado. (N.S.)





