O diretor de TV e cinema Daniel Filho participa de uma autêntica maratona de divulgação do filme ‘‘A Partilha’’ (com estréia nacional na próxima sexta-feira). No Paraná, premiSres do filme aconteceram dentro do projeto Sessão Brasil, na segunda-feira em Londrina (Cine Catuaí) e ontem em Curitiba (Estação Plaza). Daniel Filho aproveita a turnê para lançar seu livro ‘‘O Circo Eletrônico – Fazendo TV no Brasil’’ (Jorge Zahar Editor). Em Londrina, houve acirrada disputa por um convite para ‘‘A Partilha’’. O público recebeu calorosamente o filme.
Aos 64 anos, a grife Daniel Filho confunde-se com a história da teledramaturgia brasileira. Agora, segundo ele, dirige apenas o braço da Globo na área de cinema. No cardápio cinematográfico da Globo Filmes, constam alguns projetos importantes, entre eles, ‘‘Carandiru’’ de Hector Babenco, ‘‘Cidade de Deus’’, de Fernando Meireles e ‘‘O Redentor’’, de Cláudio Torres.
Ontem, no debate programado para acontecer no Centro de Ciências Humanas, na Universidade Estadual de Londrina, ocorreu, literalmente, uma partilha entre o público. No mesmo local, alunos do curso de Ciências Sociais promoviam um manifesto sobre o descontentamento no que diz respeito às recentes denúncias de corrupção na UEL. Os rebeldes com causa, numa barulhenta autofagia estudantil, prejudicaram o debate sobre o cinema nacional.
Daniel Filho até que tentou contemporizar afirmando: ‘‘Esse é um direito maravilhoso. Não quero interferir ou participar de uma faculdade, quando existem outras no Brasil.’’ Enquanto isso, os manifestantes gritavam, faziam buzinaço, promoviam um som ensurdecedor na bateria.‘‘Será que um filme do Daniel Filho é mais importante que a Universidade’’, esbravejava um aluno. Uma boa parcela do público presente pretendia assistir ao debate. Para efetivar a partilha estudantil, uma aluna gritou: ‘‘Vá pra Ilha de Caras’’. Depois de esgotada a paciência, Daniel Filho e a atriz Paloma Duarte saíram do auditório, acompanhados pelo produtor do Sessão Brasil, Caio Julio Cesaro. Atravessaram uma autêntica almôndega de contestadores e fãs que almejavam um mísero autógrafo. Muito assediado, Daniel Filho conversou com a Folha2 em capítulos (digamos assim). A seguir, trechos da quase impossível entrevista.
Você não acha que demorou um pouco essa parceria entre TV e cinema no Brasil?
Ainda estamos dando os primeiros passos. Acho que não se pode dizer que existe um casamento. Por enquanto, existe apenas um namoro.
Na Europa o Canal Plus (França), BBC (Inglaterra) e RAI (Itália) canalizam recursos consideráveis para o cinema. Em que diferencia a produção da Globo Filmes e das televisões européias?
Na Europa existem outros tipos de leis que regulamentam o cinema. Tudo é diferente. Aqui, precisamos conquistar nosso público e ter leis que realmente permitam a união com cinema e TV. Não existe somente a Globo no Brasil, existem outros canais que podem também produzir. É preciso criar leis que incentivem fazer cinema em sistema de parceria. A TV é um órgão de fazer dinheiro. Não se pode esperar que uma empresa capitalista tenha atitudes socialistas. Para a Globo, fazer filmes rende lucro zero.
O filme ‘‘O Auto da Compadecida’’ impulsionou o ‘‘namoro’’ entre cinema e TV?
Esse filme serviu para criar celeuma, para abrir uma janela e mostrar caminhos. Com ‘‘O Auto da Compadecida’’ foram respondidas algumas questões. Isso é cinema? Isso é TV? Mas o cinema usa a linguagem clipada da MTV, como no filme ‘‘Corra Lola Corra’’ (do diretor alemão Tom Tykner). As coisas se misturam. Mas muita gente ficou com pé atrás com esse filme. A TV é a forma de nos expressarmos melhor, é a nossa literatura antropológica e sociológica. É a nossa melhor forma de expressão dramática.
O que pode impulsionar o público a sair de casa para assistir ‘‘A Partilha’’, um filme com elenco em que se vê nas novelas que apresenta a estética global já conhecida?
O que impulsionou mais de 2 milhões a sair de casa para assistir nos cinemas ‘‘O Auto da Compadecida’’? O que impulsiona as pessoas comprarem 25 mil DVDs e 25 mil fitas de vídeo desse filme? Hoje, as pessoas gostam de ver e rever o que lhes agradam.
Como está a carreira de ‘‘O Auto da Compadecida’’ no exterior?
A carreira internacional do filme é complicada e difícil. Não estamos na corriola dos festivais e, no Brasil, o dinheiro dos ingressos de cinema não paga o filme.
Por que você escolheu rodar o filme com 70% das cenas filmadas no 1º take?
Esse é um jeito meu de dirigir. Nós ensaiamos três semanas. Isso dá uma maior espontaneidade ao ator na hora de rodar. E também aumenta o risco. O ator se dá mais, se atira com mais violência.

mockup