Quasar pulsa no palco
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de abril de 1999
Jackeline Seglin 
Um dos mais importantes grupos de dança do Brasil faz hoje o primeiro espetáculo da 32ª Mostra Regional/Nacional e Universitária do Festival Internacional de Londrina (Filo). Logo após a solenidade de abertura, às 20h30, a Quasar Companhia de Dança, de Goiânia, sobe ao palco do Cine-Teatro Ouro Verde para apresentar a montagem Registro. Mais uma vez, as artes cênicas estão invadindo a cidade: durante 10 dias, as ruas e os palcos de Londrina estarão recebendo 28 companhias para cerca de 40 apresentações de dança, teatro, circo e música.
O espetáculo desta noite trata do amor. Como ponto de partida, a busca desse sentimento e a necessidade de perpetuá-lo através de fotografias ou filmes. A idéia do coreógrafo Henrique Rodovalho partiu do registro de uma relação que não existe mais: a de seus avós, já separados, mas que por muito tempo dividiram momentos que ficaram guardados na imagem fotográfica.
Esta montagem partiu da necessidade de registrar momentos na vida das pessoas. Assim, fui fazendo um apanhado de elementos para mostrar, no espetáculo, várias formas de amor, explica. Rodovalho enfatizou os instantes fugazes, a fração de tempo em que a pose para uma câmera faz o comportamento oscilar entre a realidade e a fantasia, criando situações que logo se dissolvem.
Registro apresenta, ainda, rápidas interferências da violência. Eu quis trabalhar este tema, que é uma ameaça constante. Para isso, usei episódios da vida real, como o caso do flagrante da favela Cidade de Deus, em Diadema, e o depoimento de um menino de rua, relata. A proposta cênica do Quasar também inclui humor, trabalhado de forma crítica e irreverente.
O cenário do espetáculo sugere um grande estúdio - fotográfico ou de vídeo - com painéis de fundo e vários ambientes que, como as poses para as fotos, são desfeitos em pouco tempo. A iluminação diferenciada é outra característica da montagem: luzes que remetem a fotogramas de cinema, lustres, etc.
A trilha musical elaborada pelo alemão Hendrik Lorenzen passa por várias possibilidades sonoras. As músicas traduzem as variações da temática. Elas têm uma essência brasileira com algum toque europeu. São a releitura dos vários ritmos que embalam o espetáculo: samba, baião, chorinho, diz. A trilha reúne composições de Chico Science, Tom Zé, Arnaldo Antunes, Daúde e Orlando Silva.
O trabalho da Quasar Cia. de Dança se caracteriza principalmente pela singularidade. Com base em pesquisa de movimentos, música e autores, Henrique Rodovalho busca sempre as particularidades de cada bailarino. Nada de padrões uniformes. Não existe um corpo de baile. Neste espetáculo, são sete solistas que têm seus próprios movimentos de expressão, observa.
A movimentação do Quasar em cena tem uma estrutura acadêmica, mas sempre aliada a esportes, velocidade, impulsos e movimentos de risco. Naturalmente surge uma forma, mas sem desenhos e linhas, necessariamente. A direção-geral de Registro é de Vera Bicalho.
Esta é a 13ª montagem do Quasar, fundado em 1988. A carreira da companhia ganhou destaque em 96, com a montagem Versus. No mesmo ano, o Quasar também foi convidado a participar do Carlton Dance Festival. De lá para cá, o grupo tem se projetado cada vez mais. Com Registro, foi indicado a cinco prêmios Mambembe em 97: melhor companhia, espetáculo, coreógrafo, bailarina revelação e bailarino revelação. Levou todos eles.
A última conquista foi a indicação para o Prêmio Multicultural Estadão. Apesar de não levar o título, o Quasar teve o que comemorar. Só a indicação já demonstrou o respeito e o reconhecimento ao nosso trabalho. Para uma companhia que não tem patrocinadores e que vive das bilheterias, as dificuldades são muitas. No entanto, esses prêmios vêm mostrar que o nosso esforço não está sendo em vão, conclui.


