Não é nada, não é nada, é um respeitável terço da área ocupada semana passada pelo blockbuster estrangeiro ‘‘X Men’’. São 124 cópias, número a ser comemorado sem parcimônia. Afinal, estamos diante de um produto nacional com ampla circulação garantida - quem diria - pelo inimigo sempre concorrente. Para o lançamento nacional amanhã de ‘‘Eu, Tu, Eles’’ - em seis salas do Paraná: três em Curitiba, duas em Londrina e uma em Maringá -, a Columbia desembolsou R$ 930 mil para cópias, publicidade e distribuição. Para fora do Brasil os produtores fecharam acordo com a Sony Classics.
E como ninguém atira no escuro, é bom saber o que levou a ‘‘major’’ americana a investir quase 500 mil dólares neste filme, já em pós-produção. A resposta básica é simples: é um bom filme. Mais: é um bom filme com imediata capacidade de empatia com o grande público. O que significa, em aritmética elementar, fator multiplicador de bilheteria. E como para quem produz - salvo as exceções-cabeça, obviamente - o show também é business, nada mais natural do que investir em espetáculo com calculado potencial de retorno.
Até aqui sempre muito aplaudido nas poucas sessões públicas por onde andou - há três meses em Cannes, na paralela ‘‘Um Certo Olhar’’, ou há duas semanas na noite de encerramento do Festival de Gramado -, ‘‘Eu, Tu, Eles’’ é o terceiro longa e atual carro-chefe da Conspiração Filmes, um consórcio de diretores, produtores e publicitários com elogiado cartel de criações para tevê e cinema, com ampla penetração internacional. Especificamente na área de longa-metragem, esta é a terceira incursão da produtora, que anteriormente assinou ‘‘Traições’’(98) e ‘‘Gêmeas’’ (2000).
Para o diretor Andrucha Waddington, a idéia de filmar ‘‘Eu, Tu, Eles’’ surgiu quando ele viu no ‘‘Fantástico’’, em 95, uma reportagem sobre uma mulher que vivia com três maridos sob um mesmo teto, no interior do Ceará. O roteiro de Elena Soárez e o filme de Andrucha contam esta história, claro que enxertada de elementos ficcionais, cômicos e dramáticos, que não havia no relato original. No filme, Darlene de Lima Linhares, interpretada com imenso carisma e entrega por Regina Casé, é aquela mulher peculiar, espécie de Dona Flor desglamurizada e feminista a seu modo, dono de seu nariz, de seu corpo e principalmente de seu sexo, o lado principal de um inusitado quadrilátero amoroso que se completa com o ‘‘marido de papel passado’’ Ozias (Lima Duarte), o primo de Ozias, Zezinho (Stênio Garcia) e o forasteiro Ciro (Luis Carlos Vasconcelos). Rude, delicado e engraçado a um só tempo, o filme é saborosamente bem narrado. Dores e alegrias permeiam o estranho pacto conjugal. O arranjo doméstico é urdido sem maiores hesitações para que as partes interessadas e envolvidas possam sobreviver afetivamente. E psicologicamente, seja lá o que isso signifique para quatro seres egoístas e generosos, fracos e fortes, sábios e ignorantes - humanos, afinal. A palavra de ordem aqui é conveniência, e o que também aparece de forma subreptícia, assim meio de soslaio, é uma espécie sui-generis de contrato social, com regras de uma ordem não escrita e nem sequer organizada conscientemente, mas estabelecida pela reiteração do costume.
O elenco é afiado, o nível de produção muito acima da média. Breno Silveira assina uma direção de fotografia que extrai da terra e do céu as luzes e as formas exatas que a narrativa exige, embaladas pelo andamento musical de Gilberto Gil.

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