Andando pela popular feira de antiguidades na cidade de Northampton, no Reino Unido, um homem não identificado (vamos chamá-lo de Tom) teve o seu olhar apreendido por uma pintura simples: as pinceladas na tela revelavam uma paisagem bucólica, com um rio e uma casinha ao fundo. Na verdade, o que mais atraiu o olhar de Tom foi a bonita moldura do quadro, e esse foi o principal motivo para que o inglês desembolsasse cerca de R$ 260 para levar o objeto para casa. Meses depois, o quadro foi descoberto como sendo uma preciosíssima obra do artista francês Paul Cezanne, avaliada pela casa de leilões Wilfords em R$ 106 milhões.
Poucas pessoas pagariam essa quantia para ter pendurada na parede da sala um rio e uma casinha que - na visão de um leigo - poderiam ter sido pinceladas por qualquer pessoa com um pouco de habilidade. Neste caso, a assinatura faz toda a diferença. ''Quando você compra um quadro, você não está comprando apenas a pintura, mas também um pedaço do artista. Com certeza ninguém na feira sabia que o quadro era do Cezanne'', explica o artista plástico José Gonçalves, que mora em Londrina e expõe suas obras em várias galerias ao redor do mundo.
Um outro caso que ilustra bem a diferença de percepção entre o público e crítica é o da artista Adriana Varejão - que teve sua obra ''Parede com Incisões a la Fontana II'' vendida em fevereiro por um leilão da Christie's por quase R$ 3 milhões, um recorde de venda para artistas brasileiros. ''Algumas vezes a estranheza do público existe porque a obra é nova, é inédita. Na verdade, o preço alto dela é todo em função do mercado da arte; não é o artista que define se a pintura dele vale o preço 'xis', mas é o mercado que se auto regula'', comenta Gonçalves, que revela existir toda uma preocupação mercadológica, buscando a valorização das obras, dentro das principais galerias do mundo. ''Independente disso, a Adriana já é uma artista consagrada, e um nome forte por trás é responsável pela obra se valorizar ainda mais; existe uma demanda grande para a arte de alto valor'', explica.
Passeando por entre belas imagens de Van Gogh e Salvador Dali, o empresário José Vinícius Munhoz não é nenhum multimilionário ou dono de museu; ele é proprietário da loja Le Marchand, que tem um acervo de réplicas de artistas famosos, lado a lado com pinturas desconhecidas. ''Eu tive que pesquisar bastante antes de encontrar fornecedores bons, que reproduziam com fidelidade as telas. O preço varia de acordo com a complexidade das obras, e as telas que vendemos são todas de fora do Brasil'', explica Munhoz, que abriu a loja em Londrina há seis anos e vende as réplicas em uma faixa de preço de R$ 150 a R$ 800.
''Cada artista que importamos é específico em um estilo de cópia. Existem aqueles especializados apenas em Renoir ou em Monet, por exemplo'', comenta o empresário, ressaltando que as obras, mesmo sendo cópias, acabam assumindo um caráter único pelo próprio ofício da arte. ''Cada uma das telas, mesmo as pinturas produzidas em série, acaba sendo única. Os traços e as tonalidades mudam muito de um quadro para o outro: não são apenas cópias, esses quadros também são expressões artísticas'', analisa Munhoz, afirmando que trouxe a ideia da importadora da época em que morou nos EUA. ''Lá é bastante comum a decoração das casas contarem com quadros que, por serem réplicas bem feitas, têm preço acessível e são de bom gosto. Nós vimos nisso uma boa oportunidade'', complementa.
Pinturas atingirem as cifras de milhões de dólares pode parecer um absurdo, mas é importante relembrar que, quando falamos de arte, não existem normas absolutas, e o valor sempre é mensurado pelas opiniões que atestam ou criticam a ''qualidade'' do trabalho. ''O mercado geralmente estuda a trajetória do artista, e aposta na valorização da obra. Muitas vezes o investimento vale a pena'', ressalta José Gonçalves, que tem obras avaliadas em dezenas de milhares de dólares, e ainda acha complicado entender esse processo de valorização. ''Tenho uma amiga que comprou um Henri Matisse por uma fortuna, e era um quadro lindo. Depois, ela descobriu que a pintura era réplica. De uma hora para outra, o quadro perdeu toda a beleza'', relembra, tentando ilustrar o valor inerente e volúvel de uma obra de arte. ''É complicado. Antes, ela olhava para a parede e enxergava um Matisse, agora ela olha e vê pendurada só uma sucata horrível. Eu acho isso engraçado!'', exclama o artista, rindo da efemeridade da própria arte.


Pintado de ouro

Confira abaixo algumas das pinturas mais caras já vendidas em leilões de arte
Parede com Incisões à La Fontana II - Adriana Varejão
Ano - 2001
Vendido em - 2011
Valor da venda - R$2,971 milhões
O Mágico - Beatriz Milhazes
Ano - 2001
Vendido em - 2008
Valor da venda - R$1,746 milhões
Auto-retrato do artista sem barba - Vincent Van Gogh
Ano - 1889
Vendido em - 1998
Valor da venda - U$71.5 milhões
Mulher III - Willem de Kooning
Ano - 1953
Vendido em - 2006
Valor da venda - U$137.5 milhões
Rideau, Cruchon et Compotier - Paul Cezanne
Ano - séc. XIX
Vendido em - 1999
Valor da venda - U$60 milhões
Nº 5 - Jackson Pollock
Ano - 1948
Vendido em - 2006
Valor da venda - U$140 milhões
(R.C.)

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