Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2
O cinema tem um débito para com Adolf Hitler. Em fuga do ascendente nazismo, jovens realizadores trabalhando na Alemanha buscaram porto seguro para criar em liberdade. Entre os muitos que fogem e encontram a mesma alternativa no outro lado do Atlântico – Fred Zinneman, Robert Siodmak, Edgar G. Ulmer –, o austríaco Samuel Wilder (aliás Billy Wilder, homenagem da mãe ao legendário carteiro Buffalo Bill Cody) chega aos Estados Unidos na segunda metade dos anos 30, depois de uma escala e um filme na França. Em Hollywood, ele e seu companheiro de quarto, o ator alemão Peter Lorre, são forçados a aprender inglês rapidamente, para não perderem o bonde da história da mais poderosa indústria de cinema do mundo. Uma vez dominado o idioma, é hora de ocupar um lugar na fábrica de sonhos.
Começando como roteirista, não demorou muito para Wilder estabelecer sua reputação como diretor confiável. E logo no terceiro filme, o marcante noir ‘‘Pacto de Sangue’’(1944), onde ele colocou a sua marca fortemente influenciada pelas luzes e sombras do expressionismo alemão. No ano seguinte, novo triunfo: ‘‘Farrapo Humano’’, um projeto de risco sobre três dias de pavor na vida de um alcoólatra. Hollywood se curva ao talento, engole o desafio e reconhece a obra como a melhor do ano – quatro Oscar, para filme, direção, ator (Ray Milland) e roteiro. E o status de plena respeitabilidade chega em 1950, com ‘‘Crepúsculo dos Deuses’’, o mais cínico e autofágico retrato de Hollywood já realizado. Filme cruel e livre de sentimentalismo, ‘‘Sunset Boulevard’’ é na mesma medida fascinante no resgate da grandeza e decadência da mitologia da então meca do cinema. Esta mesma corrosão pode ainda ser encontrada no filme seguinte, um ano depois. ‘‘A Montanha dos Sete Abutres’’ é demolidora visão da amoralidade e da falta de escrúpulos de certa imprensa, personificada por Kirk Douglas.
Cada um desses trabalhos é hoje um clássico indiscutível. Mas mesmo na época em que surgiram foram cultuados como obras transformadoras. Entre 41 e 50, seis roteiros de Wilder receberam nominações para o Oscar. Três de suas oito nominações – só perde para as 12 de William Wyler – para melhor diretor vieram neste período.
É a partir da segunda metade dos anos 50, coincidindo com certas mutações nos cânones dos gêneros cinematográficos hollywoodianos e com o abrandamento dos rígidos princípios de censura do Código Hays, que Wilder vai encontrar a sua mais estimada especialidade: a comédia temperada. E com quais ingredientes? Com a novidade do sarcasmo e da acidez corrosiva, com o sexo na plenitude carnal da deusa Marilyn Monroe. Dois dos mais sensuais papéis da atriz ganharam a imortalidade pelas mãos de Wilder: ‘‘O Pecado Mora ao Lado’’(55) e ‘‘Quanto Mais Quente Melhor’’(59). Após trabalhar com Marilyn, os roteiros se tornam ainda mais venenosos. Ainda com temática sexual, mas cada vez com mais frequência, ele aponta na direção na desonestidade de amantes mentirosos. De quebra, por trás dessa falsidade, um outro alvo: o american way of life, dissecado em chave cômica mas com crueldade em títulos como ‘‘Se Meu Apartamento Falasse’’(60), ‘‘Irma La Douce’’(63) e ‘‘Beija-me, Idiota’’.
Quase conjugal, a dinâmica alquimia entre Jack Lemmon e Walter Matthau é outra invenção do Wilder touch, ou o toque de Wilder, como passou a ser reconhecida a habilidade do diretor em trabalhar com atores e extrair deles o melhor, mesmo quando a situação é de clichê. A colaboração entre o trio rendeu momentos de alta temperatura cômica em farsas na melhor tradição da Europa Central em ‘‘Uma Loucura por Um Milhão (66), ‘‘A Primeira Página’’ (74) e ‘‘Buddy Buddy’’, de 81, filme que marcou a despedida de Wilder.
No todo, a obra de Billy Wilder é exemplar. Do comentário social cínico e sarcástico à ultrajante farsa sexual, o diretor forçou as platéias a olhar – e repensar – os próprios valores e a moral. Não é pouco, para um estrangeiro que não teve medo de sacudir a hipocrisia de seu lar adotivo. Pena que este festival não lhe faça inteira justiça, embora ainda assim seja uma boa oportunidade para observar a evolução de um mestre.
Aos 93 anos, rico e tranquilo, Wilder coleciona máquinas de escrever. Em plena era dos computadores, da Internet e dos efeitos especiais digitais, o grande roteirista dos anos dourados de Holywood conserta e recupera antigas máquinas de escrever. Pura ironia, puro Wilder touch.

Festival Billy Wilder
Telecine 5 – 22 horas
Hoje – A Incrível Suzana – EUA, 1942. Comédia. Estréia americana do diretor. Com Ginger Rogers e Ray Milland.
Amanh㠖 Cinco Covas no Egito – EUA, 1943. Drama. Com Franchot Tone e Anne Baxter.
Quarta-feira – Pacto de Sangue – EUA, 1944. Drama. Com Fred MacMurray, Barbara Stanwyck e Edward G. Robinson.
Quinta-feira – Farrapo Humano – EUA, 1945. Drama. Com Ray Milland e Jane Wyman
Sexta-feira – A Valsa do Imperador – EUA, 1947. Musical. Com Bing Crosby e Joan Fontaine.
Sábado – A Mundana – EUA, 1948. Comédia. Com Marlene Dietrich e Jean Arthur.
Dia 21 – Inferno nº 17 – EUA, 1952. Drama. Com William Holden e Don Taylor.
Dia 22 – O Pecado Mora ao Lado – EUA, 1955. Comédia. Com Marilyn Monroe e Tom Ewell.
Dia 23 – Testemunha de Acusação – EUA, 1957. Drama. Com Marlene Dietrich e Tirone Power.
Dia 24 – Quanto Mais Quente Melhor – EUA, 1959. Comédia. Com Jack Lemmon, Marilyn Monroe e Tony Curtis.
Dia 25 – Se Meu Apartamento Falasse – EUA, 1960. Drama. Com Shirley MacLaine e Jack Lemmon.
Dia 26 – Cupido Não tem Bandeira – EUA, 1961. Comédia. Com James Cagney e Arlene Francis.O canal pago Telecine 5 apresenta um festival com 12 filmes de Billy Wilder, mestre do comentário social cínico e sarcástico
ReproduçãoWilder conta piada para Bill Holden e Audrey Hepburn num intervalo das cenas de ‘‘Sabrina’’, em 1953ReproduçãoO diretor avança sobre Marylin Monroe no set de ‘‘O Pecado Mora ao Lado’’

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