Arquivo FolhaHumberto Mauro: ‘‘O homem sozinho não poderia fazer pornochanchada. O sexo deve ser mostrado, mas com arte’’Há exatos cem anos, no dia 30 de abril de 1897, nascia Humberto Mauro, um dos pioneiros do cinema brasileiro. E também há cem anos, no dia 1º de maio de 1897, o jornal ‘‘Gazeta de Petrópolis’’ publicava o primeiro registro sobre o nascimento do cinema em nosso país, segundo a descoberta feita pelos pesquisadores Jorge Capellaro e Paulo Roberto Ferreira. Os dois estão lançando o livro ‘‘Verdades Sobre o Início do Cinema no Brasil’’. E o centenário de nascimento de Humberto Mauro vai ser comemorado com solenidades em Volta Grande (onde ele nasceu) e Cataguases (onde se criou), em Minas Gerais, com a presença do ministro da Cultura, Francisco Weffort.
Na noite deste 30 de abril, a Riofilme e a Filmarte vão abrir em Volta Grande uma retrospectiva da obra do cineasta mineiro, que produziu, pela ordem: ‘‘Cornelo Vadião, o Cratera’’ (1926), ‘‘Tesouro Perdido’’ (1927), ‘‘Brasa Dormida’’ (1928), ‘‘Sangue Mineiro’’ (1929), ‘‘Lábios Sem Beijos’’ (1930), ‘‘Ganga Bruta’’ (1933), ‘‘O Descobrimento do Brasil’’ (1937), ‘‘Argila’’ (1940) e ‘‘O Canto da Saudade’’ (1952). Ele também produziu ‘‘Canções Populares’’ (1945), ‘‘Engenhos e Usinas’’ (1955) e ‘‘A Velha a Fiar’’ (1964).
Algumas semanas antes de sua morte, em 1983, quando vivia com a mulher, Baby, numa confortável casa em Volta Grande, na zona da Mata mineira, Humberto Mauro, então com 83 anos, fazia uma revelação aos amigos:
‘‘O que eu gostaria, mesmo, era de ter feito um filme inspirado nas trovas brasileiras. Tenho um livro com mil trovas. Tem uma que diz assim: ‘Nem tudo que ronca é porco/nem tudo que berra é bode/Nem tudo que brilha é ouro/Nem tudo falar se pode’. Uma outra é camoniana: ‘Eu fui não sei aonde/visitar não sei a quem/Saí assim não sei como/Morrendo não sei por quem.’’
Humberto Mauro era bem-humorado, gostava do radioamadorismo mas, nos últimos anos de sua vida, passou a enfrentar problemas por causa de uma catarata. Só melhorava graças a um remédio conseguido por seus amigos apenas no Exterior. E o cinema era sua paixão. Não o cinema das pornochanchadas - ‘‘As mulheres deviam protestar’’, dizia. ‘‘O homem sozinho não poderia fazer pornochanchada. O sexo deve ser mostrado, mas com arte’’.
Pioneirismo Dos 12 curta-metragens que fez, gostava mais de ‘‘Tesouro Perdido’’, no qual ele era o bandido e sua mulher, Baby, a mocinha. Na sua opinião, esse filme abriu o caminho para ‘‘o verdadeiro cinema brasileiro, através de sua linguagem’’. ‘‘Tesouro Perdido’’ foi o primeiro filme brasileiro a ganhar um prêmio no Exterior.
Humberto Mauro destacava a cidade onde foi criado, Cataguases, como pioneira na história do cinema brasileiro. Três dos filmes que ele produziu na região foram homenageados nos anos 80, em Cannes, na França: ‘‘Tesouro Perdido’’, ‘‘Brasa Dormida’’ e ‘‘Sangue Mineiro’’. Esses filmes ainda são exibidos em cine-clubes europeus, principalmente na Suíça, na França e na Inglaterra. No Brasil, o reconhecimento demorou, mas chegou - em 1982, quando ele recebeu o ‘‘Golfinho de Ouro’’, numa solenidade em que seu filho Luís Mauro o representou, no Rio.
Na ocasião, ele declarou, numa de suas últimas entrevistas: ‘‘Não vou falar por vaidade, não, mas acho que não se encontra na Europa, Ásia, África, América e Oceania, nem mesmo nas Ilhas Malvinas, um sujeito assim como eu, que tenha sido pioneiro em sua terra e que tenha feito a obra de cinema que eu fiz, produto de uma força de vontade indomável’’.

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