"Quando Tudo Começa... é filme contudente sobre problema social
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de dezembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 09 (AE) - Pode-se gostar ou não de "Quando Tudo Começa...", do francês Bertrand Tavernier. O que não se pode é negar a atualidade corajosa do tema que trata. Neste novo trabalho, o diretor de "Por Volta da Meia-Noite" e "A Isca" vai direto ao ponto e esmiuça os efeitos do desmantelamento estatal na área da educação em seu país. É um filme contundente, a meio caminho entre a ficção e o documentário, um drama social e uma denúncia.
A idéia lhe veio de uma conversa com Dominique Sampier, noivo de sua filha. Dominique é professor em uma comunidade pobre no norte da França e relatou suas experiências como mestre de crianças carentes e membro proeminente (pelo menos em tese) de uma micro-sociedade nada afluente, apesar de pertencente àquilo que se costuma definir como Primeiro Mundo.
Para discutir suas idéias, Tavernier criou a figura do professor Daniel Lefebvre (Philippe Torreton), mestre em Hernaing, cidade cuja principal atividade econômica eram as minas de carvão. Com o fechamento delas, o desemprego começa a castigar a população. Cai brutalmente o nível de vida e o seguro-desemprego, em tempos liberais, já não é suficiente para salvaguardar as famílias. Consequência óbvia: os problemas sociais começam a pulular e chegam até as salas de aulas, pois as crianças são sempre boas porta-vozes daquilo que não vai bem na sociedade onde vivem.
Tavernier coloca suas lentes sobre casos dramáticos como o de um motorista de caminhão que já não tem dinheiro para sustentar a família. Com um bebê recém-nascido em casa, e sem meios para pagar o aquecimento, entra em desespero. Diante de situações como essas, o professor decide ampliar suas atividades
deixa de lado o giz e o quadro-negro e passa a comandar uma campanha contra o governo local, reivindicando condições de vida dignas para a população.
Enfim, é um drama social clássico. Tavernier não parte para a análise macro, que dá por óbvia, conforme tem dito em entrevistas: quando são os negócios que passam a comandar o mundo, é a parte fraca da sociedade quem paga o pato, ou melhor, a conta. Isso na França, um dos países desenvolvidos do mundo, e governada por um primeiro-ministro em teoria socialista, Lionel Jospin. Imagine-se abaixo do Equador. Aliás, nem é preciso imaginar.
Tavernier detém-se nas consequências micro, no domínio dos efeitos. Registra como as pessoas se revolvem em uma realidade que não controlam, na qual são coadjuvantes, quando não meros figurantes. É um cinema focado na gente miúda, aquela que, como dizia Plínio Marcos, limita-se a aplaudir ou vaiar na arquibancada, sem jamais influir no resultado.
É também um filme sobre a relativa impotência da classe média, no caso representada pelo professor Lefebvre. Por força de seu trabalho (ainda considerado importante em comunidades menores), ocupa uma posição de liderança. Conscientiza-se de quem tem um papel social a cumprir e que este extrapola as atividades curriculares. Ao mesmo tempo, depara-se com a oposição dos diretores da escola, que o aconselham a ficar quieto em seu canto, e também deve administrar seus problemas pessoais, tais como a precária saúde do pai, ex-mineiro, que sofre de enfisema.
Enfim, os elementos do drama social clássico estão aí colocados: um personagem que se transforma em paladino dos oprimidos e tem de lutar não apenas contra uma lógica econômica poderosa e invisível, mas também contra os representantes locais desta lógica - estes bem palpáveis e visíveis. Há um tanto de quixotesco em Lefebvre, mas desde que não se leve este termo ao pé da letra. Não é a moinhos de vento que ele se opõe, nem a sua indignação parece fruto de algum processo alucinatório. Ele simplesmente não se conforma em ver um país como o seu, que parecia ter resolvido os problemas sociais mais elementares, regressar a índices do século passado, pelo menos na comunidade em que vive.
Enfim, "Quando Tudo Começa..." parece, como obra de arte, mais um sintoma que uma solução. Expressa, como tantos outros filmes europeus contemporâneos (como A Isca, do próprio Tavernier, Assim É Que Se Ria, de Gianni Amelio, Rosetta, dos irmãos Dardenne, ou A Vida Sonhada dos Anjos, de Eric Zonca), o mal-estar do artista diante da sua sociedade. Por mais que digam a eles que tudo vai bem no melhor dos mundos, e abriu-se um futuro promissor com a globalização e a Europa unificada, parecem não acreditar. Gente desconfiada. Não se conformam em ver espalhados pelas ruas os signos de uma miséria que parecia erradicada. Fala-se hoje, na França, em uma "nouvelle pauvretée" - uma nova pobreza, que parece ressurgir, insidiosa, de algum lugar do passado.
Esses filmes, e "Quando Tudo Começa..." é entre eles um caso exemplar, questionam, na base, a utopia do progresso tido como linear, contínuo e inevitável. Cumprem a função de desafinar o coro dos contentes. Serviço - Quando Tudo Começa... Drama. Direção de Bertrand Tavernier. Com Philippe Torreton, Maria Pitarresi, Nadia Kaci. Duração: 117 minutos. 12 anos. Distribuição: Imovision


