Quando o tempo passa e a gente não vê
Há tempos que Cristina estava se sentindo diferente. Acostumada a dar conta do trabalho na pequena pastelaria da família, na educação dos filhos e afazeres domésticos, a contadora por formação não se conformava com as inúmeras dores que começara a sentir. Cada dia um incômodo. Bursite, começo de artitre, artrose, risco de osteoporose, além da infinidade de desajustes causados pelo início da menopausa.
Preocupadíssima, decidiu procurar profissionais da área de saúde. Em todos, foi obrigada a escutar que depois dos 40 anos é preciso ficar atento com a alimentação, fazer atividades físicas, procurar não se estressar.
Sem titubear, ela resolveu tomar uma atitude. Começou a acordar cedo para as caminhadas, mudou os hábitos alimentares e convenceu a família a comer produtos integrais. Tudo ia muito bem até o dia em que ela resolveu subir no pé de manga para colher as frutas já amarelinhas. Acostumada a fazer a peripécia, se surpreendeu quando não consegui escalar o tronco da grande árvore. Sem muitas opções, pegou uma escada e se embrenhou entre as folhas verdes.
As ''bandeiras de alerta'' não paravam por aí. Certa vez, ela decidiu ir ao centro da cidade de ônibus. Ao adentrar no coletivo, viu que um jovem se levantou e lhe ofereceu o banco que estava sentado. De imediato, ela agradeceu a gentileza. Ao sentar se deparou com a frase: ''Assento reservado para idosos''.
Mas a gota d'água que fez com que a ficha da contadora Cristina caísse de vez aconteceu no dia em que sua filha Maria Lucia, de 23 anos a chamou no quarto, fechou a porta e disse:
- Mãe, preciso contar uma coisa muito séria.
- Fala minha filha, respondeu a mãe sorrindo, achando que a garota iria contar que reprovou numa disciplina da faculdade, estourou o cartão de crédito, ou mesmo que terminara com o namoro que já durava 8 anos. Mas a coisa era bem mais séria do que ela pensava.
- É que você vai ser vovó.
Elsa Caldeira é jornalista em Londrina
www.cronicasdeelsa.blogspot.com





