‘‘Aprendi que o comércio amaldiçoa todas as coisas que toca.’’ Estas palavras proferidas por Henry D. Thoreau (1817 - 1862) em ‘‘Walden’’, revelam sua indignação diante do consumo desenfreado que anula a essência das coisas. Consumo que chega anular até o impalpável.
Nos dias de hoje, por exemplo, pode-se encontrar nas lojas roupas e sapatos da griffe ‘‘zen’’. Nos supermercados podemos encontrar bolachas de aveia da marca ‘‘zen’’. Livros de auto-ajuda ensinando como ‘‘ficar zen’’ sem fazer esforço. São vários os produtos que utilizam a palavra zen desprovida de conceito.
Juvenal Pereira/ReproduçãoMonges praticando zazen: ‘‘mente sentada’’, sem movimentosAo lado da palavra ‘‘tao’’, ‘‘zen’’ bate todos os recordes de conceitos que, utilizados de maneira indiscriminada, passaram nada significar. Distanciados de seus verdadeiros significados, tornam-se uma combinação de letras. Zen, por exemplo, de uma maneira equivocada, passou a significar ‘‘algo tranquilo’’, ‘‘algo calmo, despreocupado’’.
O Zen não é um produto nem um sentimento. É uma experiência direta com a vida em si. Procura superar os dualismos para atingir a natureza da vida. Procura a iluminação. Propõe que cada um deve procurar ver através da própria natureza essencial e, ao mesmo tempo, ver através da natureza essencial do cosmos.
O Mosteiro Zen Morro da Vargem (Hakkun Zan Zenkoji) acaba de editar um livro fotográfico contando sua história e o cotidiano da vida monástica. Com fotos de Juvenal Pereira e texto de Ademir Assunção, a obra oferece uma dimensão visual da prática diária do Zen-Budismo. Revela o Zen real, concreto, vivido a cada minuto do dia com trabalho e determinação - sem modismo nem distorções.
Juvenal Pereira/ReproduçãoJardim de pedras do mosteiro zen: para olhar e meditarPrimeiro mosteiro Zen-Budista da América Latina, o Mosteiro Morro da Vargem foi fundado em 1974 pelo mestre japonês Ryohan Shingu na região montanhosa de Ibiraçu, no Espírito Santo. No princípio os templos funcionavam em rústicas casas de madeira cobertas de folhas de palmeiras. Sem energia elétrica e utilizando burros como meio de transporte, lentamente o mosteiro foi ganhando corpo.
No início da década de 80, já com estrada pavimentada, energia elétrica e novas acomodações, os monges deram início a um projeto ambiental para a recuperação e preservação das matas. Hoje a região do mosteiro é reconhecida como Pólo de Educação Ambiental, um dos poucos da Mata Atlântica no Estado. Integrando a lista das cem experiências brasileiras bem-sucedidas de desenvolvimento auto-sustentável.
O dia-a-dia dos monges segue um rígida disciplina. Acordam antes do sol nascer para a prática do zazen. Permanecem sentados durante quase uma hora, na posição de lotús, diante de uma parede branca. Focalizando a atenção sobre si mesmo, procuram colocar a ‘‘mente sentada’’, quieta, sem movimentos. Todas as tarefas diárias são tratadas como práticas meditativas, o canto dos sutras, as refeições, o toque dos sinos, o trabalho e até o banho.
O Zen é uma experiência direta com a vidaO Zen possui três escolas principais, Soto, Rinzai e Obaku. As diferenças entre elas são pequenas, mas existem. Uma delas, por exemplo, é a utilização do Koan como instrumento de aprendizado. Os Koans são frases ou pequenas histórias entregues pelos mestres aos discípulos para que estes mantenham a mente ocupada na tentativa de desocupá-la. Geralmente são frases e histórias desprovidas de lógica, paradoxais ou engraçadas. Um dos clássicos é: ‘‘Quando batemos com uma mão de encontro à outra ouvimos um som. Qual é o som produzido por uma mão só?’’
O Mosteiro Morro da Vargem segue a escola Soto, fundada no século 12 pelo mestre Dogen Zenji (1200 - 1253). Para a escola Soto o Koan é a própria vida de cada monge, os paradoxos e as situações ilógicas do cotidiano. Um dos textos deixados por Dogen mostra com clareza a abordagem zen da vida: ‘‘Quando um peixe nada, continua nadando sem que a água se acabe. Quando uma ave voa, continua voando e o céu não tem fim. Jamais um peixe nadou até sair da água, nem uma ave voou até sair do céu.’’
A palavra ‘‘zen’’ é uma abreviação de ‘‘zenna’’ (ou ‘‘zenno’’) que é o modo que os japoneses lêem a palavra chinesa ‘‘ch’an’’ (ou ch’anna’’) que por sua vez é uma derivação da palavra sânscrita ‘‘dhyana’’ que pode ser traduzida como meditação ou ato de meditação. Zen-Budismo japonês (com a prática do zazen, koans e satori) possui suas raízes na China. Por sua vez, o Zen chinês possui raízes mais profundas na Índia, onde Sidarta Gautama iluminou-se, construindo os alicerces do Budismo.
A ‘‘filosofia’’ Zen, tal como conhecemos, foi se desenvolvendo pelos séculos até ser estruturado por Bodhidharma (cerca de 1500 anos atrás). Seus princípios não podem ser degustadas através de argumentos intelectuais. Desde os primórdios os mestres deixaram claro que a única maneira de se entender, ou saber, o Zen é através do conhecimento experimental, da experiência pessoal.
Nas palavras de Allan Watts, o Zen nunca explica nada, apenas sugere: ‘‘Tentar explicá-lo é como tentar captar o vento numa caixa. No momento em que se fecha a tampa, ele deixa de ser vento e se transforma em ar estagnado.’’
Parafraseando Matsuo Basho (1644 - 1694), todo aquele que deseja saber de bananas deve ir ao bananal, todo aquele que deseja um pacote de bolachas de aveia deve ir ao supermercado, todo aquele que deseja calça ou sapato deve ir ao shopping, e todo aquele que deseja conhecer o Zen deve ir a um mosteiro Zen-Budista.

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