Quando o samba é das mulheres
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sábado, 10 de fevereiro de 2018
Guilherme Bernardi<br>Especial para a Folha 2 

O carnaval, festa que antecede a Quaresma (os quarenta dias antes da Páscoa), existe pelo menos desde a Idade Média. Para alguns, as raízes vão até o Egito Antigo. No Brasil, ele chegou com a colonização portuguesa. Além da festa, o país ibérico trouxe cerca de quatro milhões de escravos africanos. A união de rituais europeus e africanos criou esse elemento afro-brasileiro que hoje é o mais famoso carnaval do mundo.
O carnaval, entretanto, nem sempre foi regido pelo samba: antes dele, a festa já aconteceu ao som da ópera e do maxixe, por exemplo. Em 1917, tudo mudou. O terreiro de candomblé da Tia Ciata, que reunia grandes músicos da época, foi onde "Pelo Telefone" foi concebido. Considerado o primeiro samba brasileiro, a música foi registrada por Donga e Mauro de Almeida e, pela proximidade com o carnaval, estourou e embalou a festa daquele ano. Desde então, carnaval e samba parecem indissociáveis no Brasil. Carmen Miranda, apesar de não ser brasileira e ter feito carreira nos Estados Unidos, teve papel fundamental nessa popularização do samba como ritmo brasileiro para o mundo todo.
O local onde ficava o terreiro da Tia Ciata, a Praça Onze, no Rio de Janeiro, seria relembrado, por exemplo, no samba-enredo (um samba que conta uma história) da Império Serrano de 1982 que diz "Oh ! Praça Onze tu és imortal / Teus braços embalaram o samba / A sua apoteose é triunfal". As "tias do samba", geralmente mães de santo, tiveram papel fundamental no surgimento do ritmo. Era ao redor dos terreiros que eram feitas reuniões, almoços e onde se promovia e cultivava a cultura e isso tudo era graças a essas mães de santo.
Juliana Barbosa, professora e pesquisadora do samba, explica que, apesar das mulheres participarem desde o início desses movimentos culturais, seu papel, "assim como em toda a sociedade, era limitado". As mulheres eram agregadoras, passaram a somar o papel de passistas, as "musas do carnaval", mas elas ainda não podiam compor um samba-enredo. A primeira compositora mulher foi Dona Ivone Lara. Barbosa conta que ela compunha desde os 12 anos, mas não podia assinar suas composições. "O primo dela, o Fuleiro, era quem assinava e ele ganhou até prêmio com eles", explica.
Em 1936, Noel Rosa compôs "O X do Problema", com versos como "Eu fui educada na roda de bamba / Eu fui diplomada na escola de samba / Sou independente, conforme se vê". Esse foi o primeiro samba com eu feminino, mesmo que ainda composto por um homem. Isso perdurou até 1965, quando Dona Ivone Lara ajudou a compor o samba-enredo da Império Serrano de 1965, "Os cinco bailes da história do Rio". Desde então, ela passou a fazer parte do grupo de compositores da escola.
O livro que Juliana Barbosa usa como referência diz que "apesar das mulheres serem permitidas nas agremiações, a presença delas ainda é tímida". A obra é de 2010. Esse fato faz com seja difícil lembrar de sambas compostos por mulheres e que seja mais fácil recordar outros papéis que elas tiveram, como o de musa inspiradora.
Cartola, um dos maiores nomes do samba, teve influência decisiva de sua mulher, Dona Zica. Barbosa conta que, além de inspiração, como em "Queixo-me às rosas / Mas que bobagem / As rosas não falam / Simplesmente as rosas exalam / O perfume que roubam de ti, ai", versos de "As Rosas Não Falam", Dona Zica não se relegou a ser apenas a "mulher do Cartola". O bar/restaurante que os dois abriram no Rio de Janeiro, o Zicartola, foi onde Paulinho da Viola, por exemplo, foi revelado. Dona Zica depois fez parte da velha guarda da Mangueira e colocou o marido para "produzir tudo isso que ele produziu e a gente curte até hoje", segundo a professora.
Nos anos seguintes (décadas de 70, 80 e 90), Barbosa destaca Alcione, Clara Nunes, Beth Carvalho, Tereza Cristina e Ilze Carvalho como presenças importantes no samba. Uma grande compositora dessas últimas décadas é Leci Brandão. Uma de suas composições mais famosas é "Zé do Caroço". Outra delas, na qual ela questiona problemas sociais, é "Deixa, Deixa", que tem versos como "Quero estudar, me formar ter um lar pra viver / E apagar essa má impressão que em mim você vê". Essa pegada social está presente na sambista até hoje, quando ela, aos 73 anos, está em seu segundo mandato como deputada estadual em São Paulo pelo Partido Comunista do Brasil (PcdoB) e se dedica a causas sociais, como a igualdade racial, respeito a religiões e culturas diferentes.

CARNAVAL E TELEVISÃO
Mesmo com as escolas de samba existindo desde os anos 1920 e 1930, a televisão passou a transmitir os desfiles apenas no final dos anos 1970. A partir de então, o que as pessoas veem são 80 minutos, "que é muito pouco do que eles passam 365 dias do ano fazendo", explica a pesquisadora, que afirma não discutir com quem tem essa visão reduzida, pois é o que eles "veem de fato". Ela, entretanto, que já viu ensaios e acompanhou preparações, conta que o processo de pesquisa para preparar o enredo e as fantasias é muito sério. Além disso, ela diz que toda a cultura que acontece nas comunidades durante o ano todo é muito rica e interessante e que é uma pena que ela seja deixada de lado e o foco fique em celebridades que "chegam no fim da preparação e desfilam pelas escolas e que, geralmente, são mulheres com pouca roupa".
A junção de nudez e sensualidade, entretanto, não é estranho ao carnaval. Como a professora explica, a festa sempre teve um caráter de "subversão, inversão da lógica"; e a lógica é estarmos vestidos. Com relação à sensualidade, Barbosa concorda que o samba, por ser uma dança de matriz africana, é sensual e tem presença marcante do movimento dos corpos de mulheres e também de homens, como ela ressalta, pouco antes de contar a história de um aluno angolano que estuda no Brasil; ele disse para ela que tem que se controlar quando vai à igreja, pois apenas "cantamos" e na Angola eles também "dançam", dessa forma, "toda vez que ele está no local e começa uma música, o seu instinto é começar a dançar e ele tem que se controlar". Apesar de dizer que as duas coisas fazem parte do carnaval e do samba, a professora explica que o problema é a "exploração desproporcional" delas.
A nudez é tida como ponto principal, "mas é apenas a ponta do iceberg". "Uma fantasia traz muita informação, é fruto de muita pesquisa, e cada escola tem 30 alas com várias fantasias e meia dúzia de destaques; e eles são as mulheres, famosas e com o corpo de fora", indigna-se Barbosa, que recomenda um documentário (O Mistério do Samba), um livro (O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro) e um infográfico (A Evolução da Folia) para os que querem encontrar os outros 90% do iceberg.
Negra, filha de pais cariocas e apaixonada pelo samba e pelo carnaval, Juliana Barbosa fala com orgulho dessa parte da nossa cultura, que teve influência decisiva das mulheres negras. Essas mulheres, sua força e sua importância serão tema do samba-enredo "Senhoras do Ventre do Mundo", composto para a Salgueiro, por Xande de Pilares, Demá Chagas, Dudu Botelho, Renato Galante, Jassa, Leonardo Gallo, Betinho de Pilares, Vanderley Sena, Ralfe Ribeiro e W. Corrêa para o carnaval deste ano.


