Quando o psicopata mora ao lado
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Bruna Fioreti<br> Agência Estado 
O mundo é mais amargo do que parece, sob o olhar da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva. Psicopatas de diferentes graus convivem conosco. Personagens assustadores da ficção, como a megera Flora (Patrícia Pillar), de ''A Favorita'', existem de verdade. Histórias polêmicas, como a da atriz Suzana Vieira com o ex-policial Marcelo Silva, têm mais de um lado negro. Esta visão clínica está no livro ''Mentes Perigosas - O Psicopata Mora ao Lado'' (Ed. Fontanar), que só não tornou a doutora tão pop quanto a declaração de Suzana Vieira de que se tratou com ela no auge da confusão com o ex.
''Assim como na novela, os psicopatas estão entre nós. Eles são um em cada 4 pessoas. Quase todo mundo tem um na família. Psicopatas graves são 1% ou 2% do total. Estes são os serial killers. Os leves são os '171', golpistas, mas sempre deixam rastro de destruição. Já os moderados, um terceiro tipo, são os de colarinho branco, não têm o requinte da crueldade de matar, mas dão golpes. Se tiverem de matar, matam. O que os une é que todos se repetem sempre, porque, como não têm afetividade verdadeira e a memória é ligada a isso, perdem o componente afetivo que a nossa memória tem'', define.
É este exatamente o exemplo de Flora, em 'A Favorita'. ''Para os psicopatas, o outro não existe. São desprovidos de sensibilidade e usam as pessoas como instrumento para obter poder, status e prazer. Nem todos matam. A Flora da novela fez direitinho o que eles fazem: o jogo da pena de quem sabe como usar o sentimento das pessoas ''comuns''. Por isso, atraiu pessoas superbondosas, que adoram histórias tristes. Flora começou estimulando a piedade e, conforme foi tendo poder, foi-se mostrando realmente, mudando a maneira de se vestir, de falar. Quando chega ao objetivo, não esconde mais a ausência de sentimentos. A Flora na TV foi um serviço para a sociedade. Porque nada justifica a índole ruim.''
Para Ana, um dos agravantes é a falta de uma lei específica para esses casos: ''Um psicopata repete seus crimes. Há países onde existe um teste que identifica psicopatas no sistema carcerário. Eles ficam separados, porque, se forem soltos, fazem de novo. Coloquei isso no meu livro. Chegaram a validar essa escala para a realidade brasileira, mas os políticos não botaram em votação'', lamenta.
O tema é recorrente. Na nova novela da Globo, 'Caminho das Indias', quem vai viver um psicopata é Letícia Sabatella. De acordo com Ana, a autora, Gloria Perez, quer mostrar que nem todos matam mas que muitos estão vivendo no meio das pessoas 'normais' sem serem percebidos. ''Ela vai contar histórias tristíssimas e depois vamos ver que é tudo ao contrário. Mas sem sangue'', conta Ana, que passou horas conversando com Letícia para ajudá-la a compor a personagem.
Como existe uma tendência generalizada de vincular o mal ao feio, e o bom ao belo, é comum as pessoas ficarem admiradas ao se deparar com vilãs e criminosos bonitos. ''Não dá para identificar o psicopata pela aparência. Pelo contrário. Casos recentes mostram isso. No caso recente da Suzana Vieira, teve a menina loirinha, bonitinha (Fernanda Cunha, caso de Marcelo) que passou sete meses falando barbaridades. Há uma tendência a negar essas coisas. A gente também não queria acreditar que Suzane von Richthofen poderia ser culpada (pela morte do pai e da madrasta, em 2002). Ela tinha aquela beleza Cinderela. É difícil aceitar que existe maldade por si só. Mas atos perversos podem ser inexplicáveis. Floras não se importam com os outros.
Serviço
- Mentes perigosas - o psicopata mora ao ladoT
Autora - Ana Beatriz Barbosa Silva
Editora - Fontanar
Quanto - R$ 32,90 (210 págs.)


