Quando o profano vira sagrado
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de agosto de 2016
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 

"Perdoa-lhes, pai. Eles não sabem o que dizem." Essa foi uma das passagens da Bíblia parafraseadas por Natália Mallo, diretora do espetáculo "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu", que teve sua estreia nacional na noite de sábado, no Festival Internacional de Londrina (FILO) 2016. De certa forma, pode ser considerada uma mensagem direcionada à polêmica causada um dia antes. O local escolhido de apresentação seria a Capela Ecumênica da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A montagem, que mostra Jesus vivido por uma mulher transexual, exalta a tolerância, o amor e o respeito. Porém, movimentos cristãos e de um candidato a vereador consideraram que isso seria uma afronta à identidade de Jesus Cristo, o que levou que a reitora da instituição alterar o local de apresentação na véspera.
Se com o anúncio da vinda da montagem a expectativa já era grande, a situação só deu ainda mais visibilidade à montagem: "O espetáculo virou um ato de resistência", disse a diretora Natália Mallo. Rapidamente, o caso ganhou as redes sociais com manifestações de apoio e indignação. Inicialmente, seria apresentado a um público de apenas cem pessoas, cujos ingressos já estavam esgotados. Mas, com a possibilidade de protestos que visavam impedir e atrapalhar a realização do espetáculo, essa quantidade praticamente mais que dobrou. Eram pessoas sensibilizadas com a causa, que foram lá prestar apoio à atriz Renata Carvalho. Munidos de velas e cartazes, seguiram numa espécie de cortejo do local proibido à nova sala, um anfiteatro, que se transformaria num templo de adoração à arte e liberdade de expressão. Todos puderam assistir. Já os que consideravam uma afronta não tiveram voz.
Logo na entrada, o público era recebido com um cálice de vinho e vela, que seriam utilizados em determinado momento de partilha do pão e vinho. "Apesar da escuridão que possa haver dentro de nós, sempre há luz guardada. Então deixe-a sair e brilhar no mundo", disse a atriz, fazendo uma analogia à identidade de cada um. Com um texto todo voltado à fala em terceira pessoa do plural no gênero feminino - o que não é comum - Renata dava voz às mulheres nascidas mulheres ou não. "Ele é ela. Ela é Ele. Todas somos Jesus." O sermão, longe de ser uma sátira ou deboche da palavra do maior símbolo da doutrina cristã, era uma mistura de poesia e reflexão; uma visão sensível de trechos bíblicos com contexto contemporâneo. Apesar de ser um texto traduzido da dramaturga Jo Clifford, sucesso no Reino Unido, parecia um retrato da realidade brasileira: preconceito, intolerância, discriminação e abusos que sofrem os transexuais e transgêneros. Tudo muito verdadeiro e visceral, o que causou emoção e o riso na plateia.
Entre ofensores e ofendidos, todos saíram ilesos. Ao final, em pé, todo o público de mãos dadas entoava um "amém", numa prece de amor. Assim terminava o ritual profano que alguns cristãos tanto temiam. Aplaudida por vários minutos, bastante emocionada, dedicou a apresentação a duas transexuais que foram cruelmente assinadas no último mês em Londrina, uma esquartejada e a outra sem olhos enterrada com a cabeça para baixo. "Conheço nosso país, por isso, esperava que poderia haver reação contrária, mas não que seria expulsa da capela. O fato é que tudo isso só me deu mais força, principalmente pelo apoio recebido. Agora, mais pessoas vão me assistir, já que o anfiteatro é ainda maior", disse à reportagem ao final. Acompanhada da mãe e do irmão, a jovem atriz Bianca Beneduzi, se mostrou encantada e emocionada com a performance de Renata. "Vim para dar apoio e consegui assistir. A estética é muito simples e ao mesmo tempo muito tocante. A relação que ela estabelece com a plateia, com a fala no feminino, consegue transmitir a mensagem de maneira sensível."
Hoje haverá a última sessão do espetáculo, em função da apresentação num espaço maior mais ingressos foram colocados à venda.
Serviço:
O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu Cia Queen Jesus Play/ BR (São Paulo - SP)
Quando: hoje (última sessão)
Local: Anfiteatro do CCH (Campus da UEL)
Horário: às 20h
Quanto: R$30 e R$ 15


