As muitas e diferentes variantes do desejo, que cruzam e perturbam o corpo de adolescentes e adultos, são apenas parte dos diversos temas que preocupam Lucrecia Martel, nome que avaliza os méritos do novo cinema argentino. Seu segundo longa, ‘‘A Menina Santa’’ (La Niña Santa), realizado em 2005 e quatro anos após a consagradora estréia com ‘‘O Pântano’’, é uma audaciosa, profunda e inteligente imersão num universo de personagens que parece estar mais além da razão, e somente pode ser entendido a partir das sensações. O filme está em lançamento a partir de hoje na cidade (veja a programação de cinema na página 2).
  No centro da história está Amália (Maria Alché), adolescente em torno dos quinze anos. A mãe (Mercedes Morán) e um tio da garota são donos de um hotel na província de Salta, norte da Argentina, e cenário principal da trama. Ali, para participar de um congresso de otorrinolaringologia, chegam diversos médicos, entre eles o Dr. Jano (Carlos Belloso), homem casado, com dois filhos e uma debilidade aparente: gosta de adolescentes, ou então somente se sente atraído por Amália.
  No hotel, por outro lado, há um grupo de garotas católicas que estuda o significado de textos religiosos, no exato momento em que sentem despertar sua sensualidade e sua sexualidade. Para elas, um beijo (de língua) pode converter-se no centro da criação, e o roçar de dois corpos na rua em algo transcendental, misterioso e inconfessável, mas de importância ilimitada. Este incerto chamado da carne e todos os medos adolescentes parecem explodir em Amália, que direciona sua pulsação hormonal ao misticismo recheado de boas intenções – entre elas, a de salvar da danação eterna o homem que roçou nela na calçada – não por coincidência o Dr. Jano.
  A mãe de Amália também não é indiferente ao médico, mas não são somente os dois, ou os três, que sentem o despertar de uma espécie de paroxismo de seduções desencontradas. A maioria dos ocupantes do hotel, este costumeiro espaço de trânsito, sem se dar conta parece perturbada por diferentes situações que de certa forma colocam vulneráveis as personalidades que pretendem ocultar.
  Inocência e perturbação são os dois pólos para os quais se encaminha este argumento tecido, por momentos, como uma grande trama coral. O místico e o erótico, o erótico e o místico e seus equívocos se sucedem. Segredos não revelados, autoridade familiar, desencontros de gerações e, sobretudo, o retrato impiedoso – e portanto bem-vindo – de uma sociedade que pratica um jogo de misérias. Os temas tabus são tratados aqui de maneira que não se deve confundir com leviandade.
  E a coerência da diretora Lucrecia Martel é absoluta quando descreve este cenário, sugerindo bem mais do que explicitando. Sobre imagens concupiscentes de rostos e olhares em primeiro plano, sobre uma sensualidade que expressa todo o entorno sensorial, há os muitos sons essenciais de sussurros, de rezas, de diminutivos, de zumbidos, de interferências, de falas interrompidas.
  Contemporaneamente perturbador e fascinante este ‘‘La Niña Santa’’.

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